segunda, 24 de abril de 2017

Mais de trinta

Aos meus amigos

Olhando para todos em uma roda, onde comer e beber parece-me o encontro perfeito do que seria o céu, vejo que meus amigos são de diferentes tipos. Alguns mais amargos e soltos. Outros mais tímidos e puros. Nosso ponto de encontro é o amor e a generosidade. Sempre achei que para estruturar relações a generosidade fosse o ponto vital, não como quem espera algo em troca, mas pelo simples fato de conseguirmos despertar alguma coisa no outro e algo em nós.

Gostaria que eles soubessem as mais diversas sensações que despertam em mim. Não sei, algumas vezes sinto que não pude contar com alguns, mas os perdoo. Sei que involuntariamente o destino nos prega outros motivos e os desencontros se arranjam mesmo quando a gente não quer. Também teria que me desculpar pelas muitas vezes que minha presença não pôde ser empregada, mas provavelmente não foi por não querer – a vida deve ter me ocupado de algum compromisso inadiável.

Aos que me acompanham a mais de 15 anos, sinto uma nostalgia e vê-los formando família, carreira e dando saltos maiores, me enchem de orgulho. Porque abro a boca para defender os meus, mesmo que em silêncio eu os critique. Mas isso é comum, é como falar de nossa família, da nossa mãe. Nós podemos reclamar, mas ninguém de fora tem esse poder. Viramos fera.

Quem sai aos seus não degenera.

Defendo todos com pura inocência. Sei dos defeitos de cada, mas os aceito tal e qual são. E peço humildemente, todos os dias, para que deixem algo bonito em mim. Que me dêem colo e abrigo caso precise – e sei que vou precisar. Eles me ensinam e espero que algo bom tenham aprendido comigo.

Existe algo na amizade que nos garante a mínima segurança emocional. Amores podem ser feitos de algo fugaz, mas a amizade não. Aos amigos que brotaram da terra, poucas relações se solidificaram. Os que procuravam algo – obtiveram e foram embora.

Estes, meus pequenos e doces amigos, continuam me segurando na queda, rindo das minhas burradas, me xingando por minhas manias, mas me amando. Eu os amo. Porque vi o primeiro filho de uma amiga chegar, vi a menina se transformar mulher. Queria dizer que já amo os filhos deles. Queria dizer que minha vida tem espaço para amar tudo que chegar à vida deles.

Vi o outro ganhar uma promoção quase que impossível. Também vi outro se meter nas drogas, mas estendi a mão.  Também pude aprender que fé é uma porta que cura.  Tudo que sou, devo as amizades que fiz.

Acho que meus escudeiros fiéis viram também minha melhora e meu amadurecimento, o que nos garantiu estreitar os laços.  Filmes, jantares, viagens e danças. Não tem tempo ruim para nós. Somos aquela turma do luxo ao lixo. Seja num boteco sujo ou em um jantar glamoroso, estamos todos juntos. Na cachaça e no pinot noir, travamos os mais seguros segredos. Estamos um nas mãos dos outros, como reféns.

Acredito também que poderíamos alugar uma casa imensa e vivermos todos juntos. Mesmo. Iríamos brigar, eu sei, mas ao contrario do consolo de quem vai viajar e volta, tenho muito medo que vocês se afastem. Poderia guardar vocês em mim.

Tenho medo que casem e que se mudem. Mais medo ainda se alguém puder machucá-los.  Que encontrem outros divertimentos que não sejam em nosso grupo e em minha companhia. Assumo sem querer me gabar ou me redimir, mas tenho ciúmes dos meus amigos e medo que deixem de me amar. São a família que escolhi e vê-los crescer dá um baita medo. Porque sou meio mãe deles também. Levo casaco, dou água quando alguém bebeu demais e ofereço minha cama.

Tenho medo de perdê-los para o mundo e para história que só a eles pertencem…

Mas deixo aqui escrito com muito respeito que todos vocês tem dado um sentido diferente para a vida. Alguns, juro, os conselhos são os piores já vistos. Outros soam como senhores de 80 anos.  E no mais, muitos conselhos não são seguidos – por nenhum de nós.

Gosto do telefonema de vocês com voz de quem fez uma puta merda. Porque a gente ri juntos dos erros também. Fico perdida a quem devo escutar, mas são generosos em seus conselhos e é por isso que em todos esses anos, nos perdoamos e estamos firmes e fortes. Emprestando nossas economias, nossas casas de praia e nossos abraços.

E dizer a vocês que por me amarem, me amo também. Porque não é possível ter tanta gente linda do meu lado, fiz algo para merecer. Gratidão é a única maneira de me portar agora.

Continuo com a ideia de que podemos morar todos juntos, mas em nossas memórias e em nossos peitos. Vai ter sempre lugar para vocês e espero que mesmo aos meus amigos que estão longe sintam-se abraçados agora. Porque posso viver sem dinheiro e sem amor, mas não sem vocês.

E que se por algum motivo o destino nos separar é para lembramos com carinho do que aprendemos juntos. Ninguém entra ou sai do nosso caminho sem um determinado motivo. Por que todo mundo que passa em nossas vidas, deixa algo em nós e leva algo de nós.

Que a solidez da amizade nos acompanhe. Que nos ensinem a conviver com pessoas diferentes e a respeitar aos que podem nos ofender, mas nos amam.  Porque só nossos amigos tem esse direito. De dar bronca e pegar no pé. E dizer que fizemos uma grande burrada, mas que estão do nosso lado, para o que der e vier.

 

 

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