Thursday, 18 de July de 2019

Mais de trinta

Como respeitar nosso luto? Sobre encontros e desencontros…

Não, não acredito que é possível ser feliz sozinho e também não acho que ninguém pegará uma aversão ao amor.

Não, não acredito que é possível ser feliz sozinho e também não acho que ninguém pegará uma aversão ao amor.

Eu lembro quando você soltou minha mão. Eu fiquei só. Me senti só.
Fui tomada por um vazio, por lágrimas, por um sufoco.
Pediu para que eu seguisse em frente e tivesse calma. Calma era a única coisa que meu coração não tinha.
Você disse que era amor, mas precisava ir. Eu ainda não sei para onde.
Eu nunca achei que seria uma despedida. Foi um abraço breve, um carinho que chegou a doer, um longo “se cuida”. Não teve beijo, nem aquelas conversas que fazer a gente se sentir pior ainda.
Não supliquei, fica. Não consegui dizer nenhuma palavra. Meu coração, corpo e cabeça trabalharam em ritmos opostos, demorei alguns dias para entender o que estava acontecendo.
Eu sentia você longe, mas não o queria longe em presença. E claro que esse meu egoísmo me matou aos poucos. Eu não queria só presença, eu queria tudo inteiro, tudo muito, eu queria sua alma perto.
Você tinha um olhar de quem sentia culpa.
Eu nunca imaginei que você fosse, achei que era um blefe.
Eu fiquei um tempo sem entender os fins, na verdade não entendi nem os meios.
Foi como se me tirassem algo do peito, algo que me fizesse não respirar.
Era um exagero que só entende quem ama.
Evitei sair com meus amigos para não ficar repetitiva. A minha dor era muito particular.
Alguns me aconselharam a sair para dançar, a me jogar por ai, a tratar de ser feliz, a conhecer outras pessoas, a viver.
Foi ai que entendi, estava de luto.
Quando tempo a gente leva a um novo recomeço? Quem responsabilizamos pelas perdas?
Resolvi acreditar fielmente que passaria e que para esse tempo ser realmente aproveitado, deveria sim, por que não, me entregar à tristeza que sentia.
Como as composições de Bossa nova, a tristeza podia ter algo de belo, alguns ensinamentos.
As pessoas precisam respeitar seu tempo próprio, sua cicatrização, seu mecanismo de defesa e seu tempo de renascer. Se realmente nada acontece sem precisar, que brindemos os acasos e as razões.
Toda vez que ouvirmos na vida um não, vai doer. Toda vez que alguém for embora ficará o sentimento de abandono, de rejeição e eu sei que dói. Mas amigo leitor, digo com toda a experiência do mundo – vai passar.
Meu conselho é- não force a lei natural do tempo. Para todo recomeço precisou existir um fim.
Não, não acredito que é possível ser feliz sozinho e também não acho que ninguém pegará uma aversão ao amor. Também não sei se acredito essa idéia de mesa de bar que alguns vieram ao mundo para amar e outros para serem amados.
Também não brinco e não jogo com o amor. Não acredito em jogos de sedução, tal pouco em magia negra e amarração. Acredito que duas pessoas só ficam juntas por amor.
E mesmo que a vida me prove que estou errada, essa é a única mentira que quero conservar dentro de mim.
O que acontece no fim é que a gente até amadurece, cresce e se reinventa. Mas quando chegar outro amor talvez seremos iguais. O amor abaixa a guarda, deixa o coração maleável, deixa a porta entre aberta.
Eu assumo que cometeria todos os velhos erros por novos amores.
O mundo todo procura amor e não acho que existam almas gêmeas, mas existe alguém que também sofreu e agora procura por você.
Nesse meu tempo de luto descobri também que a diferença entre quem bate a porta e quem fica é que quem foi embora viveu o luto antes da separação.
Eu estava cega de mais para perceber a distância que já havia se instado entre nós. Eu não dei atenção para aqueles trejeitos e gaguejos. Para aquele seu timbre rouco como quem engolia as palavras.
Eu sabia que você queria me dizer algo, mais deixamos sempre para mais tarde.
Todo mundo se machucou. É difícil para quem escolhe deixar alguém.
A relação não seria bom para nenhum de nos dois.
E você acha justo alguém forçar amar você e ficar perto pela metade?
Claro que no inicio fiquei com muita raiva, senti que ninguém queria ser responsável pelo meu sentimento, senti que a pessoa não quis se responsabilizar pelas minhas dores.
Foi como um tapa nas costas que dizia – olha, você é uma pessoa muito especial, tem lindos olhos, lindas coxas, um ótimo gosto musical, amigos engraçados, o sexo é ótimo, mas não me serve, não me veste agora. O que eu procuro não tem jeito, não tem nome.
Eu poderia culpá-lo por não despertar o amor? A verdade dói, mas ele não me amou.
Respeitei meu luto, foram dias, chorei, ouvi as musicas mais tristes que pude, dancei sozinha, chorei e repeti as inúmeras historias aos ouvidos de meus amigos.
Eu te xinguei, te odiei e novamente te amei.
E foi assim que fiquei só, que fiquei em paz.
Eu, os meus livros, meus discos, minhas coxas e meus olhos….
Não entendo os motivos necessários por ter ficado por algum tempo, talvez o tempo suficiente para saber que não era aqui que queria estacionar.
Com toda minha intensidade e fragilidade por fim, não em arrependi.
As lembranças ficaram repassando na minha cabeça, fiquei pensando e me cobrando o que eu poderia ter feito de diferente, no final das contas a única coisa que entendi é que só fica quem gosta o suficiente da gente.
Só fica quem quer ficar.
E isso é maravilhoso, porque se ele foi embora é porque outro alguém precisava chegar.
Eu não tenho espaço aqui para relação meio termo. Não quero nada morno. Não quero amar só.
Quero afeto, medo, paixão, amor. Quero saudades, quero sexo quente.
Aqui não tem lugar para café morno.
Tudo bem foi legal, mas quantas pessoas passam breve por nós?
Acredito que temos tempo de validade.
Pronto o luto foi vivido, o tempo passou e entendi o que isso queria de mim. Aprendi a verificar quem ficaria ou não na minha vida. Quem te falaria amo da boca para fora e quem me amava para valer.
Quem ia entrar no quarto e quem ficaria na sala de estar.
Confesso, ele foi uma facada no estômago, uma espetada no meu orgulho, um atropelo no meu ego. Ele mexeu nas minhas fraquezas, ele me deixou sem cuidados.
Passou, consegui ver a beleza do ponto final. Escolha ter finais, não empurre com a barriga.
Os fins são esclarecedores depois do luto.
Depois despretensiosamente viva, se arrume, se ajeite. Cabeça, coração e todo resto.
Outras pessoas vão chegar já se acomodando em nossos braços e alguns vão se oferecer para entrar e ficar…

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