Monday, 09 de December de 2019

Mais de trinta

Demonstrar sentimentos não é ruim

Expor sentimentos é uma das melhores maneiras para se viver bem

Expor sentimentos é uma das melhores maneiras para se viver bem

Dias atrás estava esperando começar um programa em uma emissora de TV a cabo e estava passando um programa ao qual eu nunca havia assistido chamado The Real Housewives. Aparentemente se tratava de uma dinâmica onde os participantes do reality deviam erguer a pata de um cavalo e escovar o casco. Não tenho muita certeza se era isso mesmo, pois não acompanhei o episódio completo.

O interessante é que o âncora do programa aparentemente fazia observações muito pessoais sobre os participantes, sobre coisas que não haviam sido ditas a ele anteriormente, antes de eles tentarem cumprir o solicitado. Então, ele disse algo como que quanto mais vulnerável eles se mostrassem, quanto mais demonstrassem suas fraquezas, mais conectado com o animal estariam e conseguiriam cumprir o solicitado com maior facilidade. E disse ainda que o mesmo aconteceria com as pessoas.

Depois da experiência, os participantes refletiram sobre suas fraquezas, sobre seus sentimentos e essa questão de demonstrá-los. Acabei pensando nisso também, refletindo pois isso tem a ver com algo que tenho experimentado ultimamente. Por um lado, sinto que melhorei muito como pessoa com o passar dos anos; que evoluí, me tornei alguém melhor, mais madura, mais equilibrada, mais calma. Mas por outro lado, sinto que sofro muito mais do que antes da mudança e isso é bem confuso de entender.

Acho que com a evolução tenho me exposto mais, demonstrado mais as minhas fraquezas, minhas limitações. Me mostro mais vulnerável e isso sem dúvida tem me feito mais “conectada” com as pessoas, mas talvez justamente por isso me traz um maior sofrimento. Me chateio mais, me emociono mais, sofro mais…

Talvez isso tenha a ver com nossa infância, geralmente não somos muito incentivados a nos mostrar fracos e no meu caso, fui incentivada ao oposto. Quando somos crianças, geralmente não temos incentivo para demonstrar sentimentos não muito nobres como a raiva, ciúme, inveja, vergonha ou medo.

Mesmo chorar não é tido como algo bom, e aprendemos que devemos parar… “engolir o choro” como muitos pais dizem. Somos ensinados, com raríssimas exceções, que não devemos demonstrar nossas fraquezas e aos poucos somos adestrados para reprimir o que sentimos.

Sem o apoio nos momentos difíceis onde estamos mais frágeis e vulneráveis, sem ajuda para lamentar nossa dor, solidão, tristeza, acabamos aprendendo que o melhor é bloquear, reprimir, não demonstrar para outras pessoas e para nós mesmos tudo aquilo que sentimos.

Aprendemos que devemos ser fortes e mais que isso, que devemos sempre demonstrar isso em qualquer situação. E muitas vezes, ou quase sempre, conseguimos mas a que preço? Com o passar do tempo, nossa vivência e amadurecimento, começamos a perceber que tudo aquilo que aprendemos a não demonstrar, a não sentir precisa sair de dentro de nós pois se torna insustentável e insuportável viver assim…conviver com isso.

Talvez em uma tentativa de fazer diferente, de reviver isso acabemos criando situações e relacionamentos onde esses sentimentos e essas experiências possam ser experimentadas novamente. Durante nossa primeira infância, aprendemos a reprimir qualquer fraqueza, qualquer vulnerabilidade como sentimentos de desprezo, rejeição, abandono, solidão, pois não temos com quem compartilhar os mesmos, por não termos uma resposta positiva quando vamos fazê-lo. Depois de adultos passamos a tentar (ainda que de forma inconsciente) recriar essas situações para tentar resolver o problema original e colocar tudo isso para fora.

Criamos uma espécie de padrão de pensamento onde podemos registrar e acreditar que não merecemos ser amados, nem aceitos por aquilo que somos se demonstrarmos essas vulnerabilidades. O comportamento infantil que busca a aprovação constante, a não repreensão se repete e gera uma imensa dificuldade nos nossos relacionamentos, ou podem impedir que consigamos desenvolve-los pelo medo da reprovação.

Basicamente o padrão é o seguinte: se, por exemplo, alguém se sentiu abandonado, rejeitado na infância pode recriar o mesmo padrão de relacionamentos com pessoas que o faça se sentir da mesma forma. Isso pode ocorrer tanto por uma questão de auto estima, onde a pessoa se pune constantemente acreditando que é exatamente isso o que merece, ou pode ocorrer na tentativa de se libertar desse sentimento reprimido, na tentativa de “consertar” isso, de conseguir expressá-los.

O problema é que isso só poderá acontecer se conseguirmos expressá-los, se houver alguém com quem possa se abrir, dizer o que sente, lamentar, e receber todo apoio que não recebeu na época em que aconteceu. Para resolver isso, precisamos conseguir falar sobre nossas dores demonstrar que estamos abertos e dispostos a aceitar, a superar o episódio passado. Mas muitas vezes temos medo, pois é difícil e o processo é lento e doloroso.

Por medo de sentir mais dor, fugimos desses sentimentos, desses assuntos e o medo nos cega para o fato de que não falar sobre o que sentimos, não nos isenta de sentir. Aprendemos sempre que somos culpados por ser fracos, por sentir, por ser vulnerável e achamos que quando não somos aceitos e somos abandonados é por um problema nosso… acabamos esquecendo quantas pessoas ficam ao nosso lado e nos apoiam quando mostramos nosso lado mais fraco.

Só conseguindo enxergar isso bem aos poucos conseguimos começar a demonstrar nossas fraquezas e dores. Com isso elas vão se dissolvendo e conseguimos encontrar uma maior harmonia, tranquilidade e paz. Conseguir reconhecer e demonstrar as coisas boas que fizeram para você e as ruins também é muito bom, pois mudamos o padrão aprendido.

Não demonstrar as fraquezas, as vulnerabilidades faz com que não o façamos nem para o bom sentimento e nem para o ruim…a vida não tem apenas dores e tristezas… Mesmo tendo existido, elas podem ser substituídas por paz e harmonia. Reconhecer o que recebemos de bom dos outros e dividir com outras pessoas desconhecidas ou com quem nos faz sentir vivos é uma espécie de remédio para a dor que nos fizeram um dia sentir.

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