segunda, 24 de abril de 2017

Mais de trinta

Linha tênue – Começo e Fim

Morar sozinha depois de ter morado junto, me causou uma sensação estranha.  Para começar, não fui casada, então a palavra separada não me traduzia. Sei que vão me crucificar, mas defendo a idéia que morar junto e se casar são opções diferentes.

Na mudança de apartamento já me sentia aliviada, não que não gostasse do meu lar antigo, mas definir sozinha onde cada coisa deveria ir, já era um autoconhecimento maior do que os meus anos de terapia. Tudo isso porque sempre fui dependente de alguma segunda pessoa. Tenho gravado em mim uma carência que me atrapalha, mas na essência me faz bem.

Não sofremos nas divisões das coisas, ele foi gentil. Acho que eu também fui. A gente tem tanta vida para viver ao invés de contar bens – e, diga-se de passagem, não temos nenhuma fortuna que nos levem a brigar no tribunal.

Por sorte não tivemos cachorro, o único motivo que nos traria problemas – guarda compartilhada.

Muitas vezes alguém me olhava com cara de enterro e perguntava – Tudo bem?

Sempre respondi que sim, porque estava. Chorei normal. Sem grande alarde. Quer dizer, alguns dias são melhores que os outros, a vida como ela é. Quase me questionei se deveria sofrer mais, logo eu, que sou tão dramática. Lá vinham os olhos julgadores dos amigos incomuns – Mas tá tudo bem mesmo?

Essa foi uma divisão difícil, mas alertadora. Amigos são assim, quando um casal separa, cada um fica com os seus. Um ou outro até dá para trocar, mas…

Eu e ele não somos os melhores amigos do mundo, mas algo nos liga. Talvez o carinho que temos um pelo outro, ou por essa desculpa que inventei para parecer mais agradável a idéia de chegar em casa e não precisar contar meu dia para ninguém.

Aos poucos fui vendo com mais liberdade a frustração de um final de uma relação.

Primeiro, acordava de madrugada como quem procurava algo perdido. Assustada, não desarrumava a cama inteira, só o lado que eu dormia. Às vezes demoro a achar alguma coisa, principalmente as meias, que não são minhas, são dele.  Esqueci de devolvê-las, se é que um dia avisei que as pegava.

Agora não tenho em quem colocar a culpa do sumiço de algo, de um copo quebrado, toalha molhada ou bagunça pela sala.

O bom é que se chego em casa cansada e não tenho compromisso com nada. Dá para deitar de pé sujo no sofá, comer sopa de doente e ler, meu fiel passatempo.  Posso colecionar meus pratos de porcelana, que tenho certeza que ele sempre achou cafona.  E posso comer gordura, mas o leite zero lactose que ele inseriu na minha dieta, continua.

Confesso que tenho saudade no café da manhã. Não me ofertei mais banquetes. Minha tapioca fica um desastre e meu café preto é o pior que já tomei. O dele era bom. Se fosse uma propaganda, diria que é o amor. O fato é que ele sempre teve mais jeito.

Eu aprendi a tomar coca cola zero e nunca mais desapeguei. Nem por raiva, nem pela dieta.

Essas passagens de momentos que dividimos a vida com alguém vão nos modificando, nunca saímos os mesmos, ou ilesos.

A saudade que sinto passa e sobra um breve sorriso de afeto. Aprendi com os gurus que enviar luz para ele diminuía minha angustia. Dane-se a luz. Dane-se ele.

Esse é um ato egoísta meu, não to mandando nada na verdade, to querendo apenas me limpar. Mantras, meditações, alcoolismo e festas, foram assim que me curei da dor. Não posso deixar de mencionar a praia, ou melhor, o mar.

Tinha esquecido que gostava tanto do verão, porque ele odiava. E o mar, que ele nunca deu um mergulho comigo.

Depois que seu coração está mais cicatrizado, você olha o passado de outra forma. Jamais poderia ser feliz com alguém que não é devoto do mar, mas poderia ser amiga de alguém que faz piada ácida sobre qualquer coisa. Por isso, prefiro manter esse elo.

A verdade é que qualquer coisa que mude nossa perspectiva deixa a gente confusa. Tudo frustra, seja o filme em cartaz que nos desaponta, um filho que vai estudar em outra cidade, seja uma louça nova quebrada, mancha no sofá ou um amor acabado.

Ele disse que queria me ver  dona da minha vida e descobrir quem de fato sou. Bom, ainda não sei, mas ao abrir a porta da minha casa e ver as cores e móveis que eu mesma escolhi, sinto que o seu conselho deu certo.

Na geladeira não tem mais frutas e ele brigaria comigo, mas meu lar tem afeto, amigos e uma porção de tranqueiras que coleciono. Acho que ele se orgulharia de mim ao ver que cresci e que mesmo ainda não sabendo o que quero ser, sei o que não quero.

Não quero ter um marido para ser mãe dele, não quero filhos para segurar um casamento infeliz, não quero ter conta conjunta, não quero ser feminista e não quero me entregar a outra pessoa que não seja por amor.  Quero continuar usando camisas e tênis, deixar o cabelo crescer, fazer teatro e começar a ler filosofia.

Quero trabalhar alguns dias na praia e outros na cidade grande. Quero escrever um livro, adotar um cachorro e esperar um cara legal para chamar de meu.  Quero ir para praia todo final de semana e estar mais perto dos amigos. Talvez quisesse comprar um chapéu e uma prancha de surf, colocar novas metas e começar uma nova faculdade. Também quero me casar, porque assumi que nasci para acreditar no amor. Quero continuar sendo bocó.

Ainda vou continuar com o carro na reserva e sapatos espalhados pela casa e vou manter isso para não quebrar o protocolo. Também continuarei fumando meu cigarro, por hora.

E dentro do meu coração, por hora, vai ter saudades suas.  Saudades das coisas que não vivemos e de tudo que deixou que eu vivesse ao seu lado. Por hora, vejo o fim com mágoa e muito amor. Acho incrível como podem ser complexos esses terrenos.

Já não tenho medo de dormir sozinha e arrumei uma companhia que além de ser diferente de mim tem me feito muito feliz. Gostaria que fosse ele, mas não vamos criar nada além de afetos.

Passo o dia entre dramas e ideias e penso muito em comida. Já que agora gosto de pizza e assumi meu lado fresco, mimada e às vezes, com péssimo humor.

Aos poucos a gente vai se aceitando, vai encontrando na dor a nossa fortaleza. Esse discurso de que a gente precisa ser primeiro sozinha para se conhecer e depois se envolver de novo, para mim, não cola. Faço análise desde nova, vou à minha Igreja firmar minha cabeça e meus votos em nome do amor. Não quero me conhecer mais e mais sozinha, mas confesso que esse tempo já foi muito bom. Não vou negar minha vontade de ter um par compatível com meus objetivos, mas não vou mentir que sozinha vou bem…

Aos poucos tenho aprendido o valor da saudade e a importância dos gestos. Aos poucos.

Tenho me livrado do medo de tudo e da frase “Não sei”. E que onde não dá pé, não mergulhe de cabeça – se é que me entende.

E por fim, aprendi que a vida é boa, com ou sem você.

 

 

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