Thursday, 21 de March de 2019

Mais de trinta

Alimentamos o amor como deveríamos, porque ele acaba?

Amor, equilibrio de forças

Amor, equilíbrio de forças

Nós quase chegamos a acreditar que lealdade é mais importante que fidelidade. Que a mulher servia só na cozinha enquanto o homem cumpria seu papel saindo para trabalhar…

As propagandas da TV nos fizeram crer que casamentos felizes são aqueles com, pai sexy grisalho, mãe magra e loira, filhos e cachorros. Que rico de verdade é quem tem um apartamento grande, casa com piscina, um carrão e que integridade e outros valores ficam para segundo plano. Deixaram a razão tomar lugar dos sentimentos. E o equilíbrio ficou restrito a uma parcela de gente que parece que nem da terra é…

Quase acreditamos que a mulher não poderia ser sexy, que não poderia ser dona de si ou que se decidisse ser mulherzinha no casamento receberia a faixa da submissão.

O mundo nos jogou a culpa de sermos quem somos. O mundo fez com que tivéssemos vergonha de escancarar nossas angústias ou de nos mostrarmos pouco comuns aos efeitos do que é visto como normal…

Aos 15 anos já estava trabalhando no shopping como vendedor atrás de liberdade. Aos 20 e tantos descobri que tudo que é radical demais perde a graça e que liberdade é algo mais complexo. Aos 30 equilibrar-se na corda da vida é sempre o melhor remédio, porém uma luta diária seríssima.

O problema é que ficar mais velho trás mais consciência, mas nem sempre menos sofrimento.

No caminho encontrei radicais que estavam pouco dispostos a serem cordiais com minhas dores, mas também pessoas magníficas com quem dividiram as complexidades e as questões existencialistas. Encontrei pessoas profundas e rasas e todos me ensinaram alguma coisa. E no meio do caminho – precisamos salvar por diversas vezes nossos relacionamentos, porque a modernidade nos fez pensar que não devemos tolerar o morno.

Entre o conservadorismo e modernidade, fico com o primeiro. Gosto de cortejos. Uma das minhas maiores barreiras é fazer o homem que eu amo ser mais sensível. Mas calma lá,– homem tem que ser bruto! Bom, não acho. Cheguei a pensar que nossa combinação estava justamente nas diferenças, entre a minha extrema sensibilidade e a racionalidade excessiva dele. Talvez a gente possa se completar como Ying Yang. Vai saber…

Talvez seja sim mulherzinha, gosto de ser a parte sensível da relação, mas quando ele precisar fraquejar posso ser forte por nós dois. Acredito em um pilar familiar, mas a modernidade quer que eu aceite que isso é bobagem. Sei que as famílias de hoje são compostas de diferentes atributos, aliás, tudo que tem amor no meio tem minha fiel defesa – do contrário, não consigo defender tais convenções.

Acreditei no casamento como a forma mais linda de se dizer sim a vida. Plano de vida – só esse? Talvez. Casar e ter filhos sempre foram um grande plano de vida e um objetivo para mim. Hoje o cenário mudou e me deixou confusa com as coisas que espero dentro de uma relação e com meus planejamentos.

Algumas pessoas querem ficar sozinhas porque acham que ter alguém significa anulação… Eu não sei se anulação é a palavra, talvez, abdicação – que se refere ao termo de abandonar o poder em prol de beneficio conjunto. Entende? Eu abandonaria algumas convicções e vícios de personalidade para ser feliz. Fácil? Nenhum pouco… Se alguém sabe como fazer, me ensine.

Não existe nada mais gostoso do que em uma pessoa só, encontrar várias companhias- por esse motivo nunca acreditei em solidão como algo bom. Momentos de solidão – sim – eternidade em solidão, jamais!

Verdade seja dita, todo relacionamento passa por um momento em que tudo esfria e que acorre um estranhamento. Às vezes, a relação é mesmo um porre e você tem vontade de assassinar a tesouradas seu marido (brincadeirinha).

As pessoas são substituíveis? Prefiro acreditar que são recicláveis. O tempo só serve quando as duas pessoas estão dispostas a se reciclarem como pessoas, se estiverem dispostas a serem melhores em sua plenitude. O peito precisa estar aberto ou se instala uma dificuldade visceral.

Não podemos virar as costas e deixar esvair as coisas que foram e são boas, sem ao mesmo a esperança de lutar por aquilo que amamos. Sei o quanto é difícil dormir junto quando uma parte do coração está ferida. E sei também como é ruim acordar sozinho sem o cheiro da pessoa de quem se ama…

Acredito que as relações precisam de um sacode, vez ou outra. Lembro que minha mãe já dizia isso: “quando se casar, filha, continue se arrumando, mesmo se for para ficar dentro de casa…” Fiquei por tempos achando esse conselho medonho, até me casar. Sempre tive alguns argumentos de personalidade independente na ponta da língua, mas sou carente e nunca deixei de pensar que era melhor ser junto do que sozinho. Nunca me imaginei sem o que tenho agora.

Com o amadurecimento aprendi que precisava enxergar o que eu também vejo. Possibilidades. Projetos incomuns… Além da beleza da idade, também achei que era necessário enriquecer o intelecto para termos assunto quando o assunto acabar…

Gosto que meu marido chegue e me encontre bonita, mesmo que seja de pijama. Gosto que elogie meus pés bem feitos, meus cabelos com cheiro de banho. Pode me chamar de mulherzinha à vontade, não me incomodo com isso. Nunca me incomodei. Também podem dizer que ele tem que gostar de mim como eu sou. Olha, também acredito. Terá dias que ele chegará e não estarei nem um pouco a fim de passar um blush cor natural para recebê-lo… Mas pensarei em conversar intacto certas intimidades e caprichos – que fazem bem a relação e a nós dois.

A vida de casado não é fácil. Difícil assumir a alguém o medo que temos, que nosso amor perca o interesse por nós. A admiração é o segredo de tudo. É isso que mantém intacto muito dos sentimentos.

Agora ele me vê acordando, com bafo de cabo de guarda chuva, com o cabelo do Rei Leão…Ele também precisa se cuidar. A barriguinha de casado pouco me importa, mas ainda quero cheirar a barba dele e ter aquele cheiro que ficou guardado na memória.

O que quero dizer é que ao invés de acharmos que a relação está sempre por um triz, porque não pensarmos que ela está sempre no começo?

Você está cansado da semana, seu trabalho está um porre, tem um projeto extenso para entregar… Eu sei, a vida é corrida, mas sinto muito, a pessoa que está do seu lado em alguma hora do dia merece sua atenção. Seja por um simples bilhete na geladeira escrito “ hoje, te amo mais do que ontem”…

A gente acha que depois que conquista alguém não precisamos fazer mais nada… Na verdade é nessa hora que a relação degringola de vez. Se a gente gosta da conquista porque não conquistar a mesma pessoa sempre?

Do contrario me dê um motivo coerente para as pessoas casarem – a não ser por burrice?

Eu me casei por amor e já é difícil para caramba. Eu vivo tentando agradá-lo com manifestos de amor. Nunca perguntei o que ele espera de mim. Nunca soube o que esperar dele.

Só sei que ao vê-lo acordar sou tomada por um sorriso, que me faz ficar e superar as brigas e as diferenças. Sou tomada por uma certeza do quanto quero que isso dê certo. Em troca ele me da às coisas das quais preciso, mesmo que ele não entenda muito bem o que eu digo. Sempre preciso de mais, com tal são as mulheres. Depois volto ao consultório da psicanalista e concluo que sou uma filha da mãe egoísta.

Alegro-me como um cachorro ao vê-lo entrar pela porta de casa, porque na companhia dele eu sei que sou uma pessoa melhor.

Qualquer relação é sempre um projeto duradouro e uma das principais características é o pensamento conjunto “querer que isso dê certo”. Acho que a felicidade está mais perto do que imaginamos e mais simples do que a complexidade exige. Para isso a tolerância e a paciência são armas ao tédio. Com carinho a gente vence as batalhas do convívio, blinda o ciúme e a insegurança, por algo muito maior- pelo bem da relação e por acreditar que sei lá, o para sempre pode existir. Quem sabe? É preciso romantizar o impossível. Cada um exercendo seu papel.

 Liberdade para amar

Liberdade para amar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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