Thursday, 20 de June de 2019

Mais de trinta

Qual é o limite de nossas idealizações na vida a dois?

Amor, qual o real equilibrio

Amor, qual o real equilíbrio

Dia desses, ouvi de uma pessoa “Ele pode me dar tudo que eu quero”. Fiquei confusa.

Na verdade também procurei por anos alguém que pudesse me dar tudo que eu quero – ou queria. Já nem sei mais se isto é possível. Achar a tão pessoa perfeita. Acho que está mais para encaixe e jeitinho brasileiro. A gente dá o que pode e aceita o que podem nos dar..

Nós seres humanos gostamos mesmo é de ver problema onde não tem. Por mais que uma pessoa esteja disposta a entrar de corpo e alma em nossas vidas, além dos defeitos carregados por pessoas comuns, tem ainda o que inventamos.

Se ele nos leva chocolate, vamos dizer que ele não é romântico.

Se ele nos leva para jantar, vamos dizer que ele não arruma a casa.

Se ele cozinhar, vamos dizer que ele não lavou a louça. Ai dele se quiser tomar uma cerveja com os amigos. Ai dela se ela quiser sair para dançar e voltar às tantas da manhã. Isso é uma coisa que procuramos nas relações, liberdade, mas nunca estamos dispostos a dar ao outro a liberdade que lhes cabe.

De outra pessoa escuto vira e mexe ouço reclamações do marido e penso “Porque ela está com ele?”. Pobre de mim que ainda não aprendi que gostamos assim, de ter coisa para reclamar. Mas se estão juntos ainda é porque alguma coisa boa tem, certo?

Não sei.

Essas coisas a dois são tão difíceis quanto as expressões numéricas da escola. Na verdade agora tanto as expressões numéricas e as relações, vistos de forma racional me parecem mais fáceis. Mas eu ainda tenho um coração, que vira e mexe me arruma cada cilada.

Vou dizer por que acho pratico (às vezes). Se temos um compromisso em sermos felizes e queremos que todas nossas relações dêem certo, o que damos ao outro ? Será que estamos dispostos a perdoar erros – bobos ou não e será que estamos dispostos a mudar nossas concepções do que é alguém ideal?

Cada idealização gera mais frustração. Esperamos que alguém nos tome pela mão, que carregue consigo nossos problemas e nossas angústias, a fim de esvaziar nossas preocupações. Infelizmente devo dizer que ninguém pode ser responsável sozinho por nós. Infelizmente ninguém pode tirar nossas frustrações e limpar nosso peito. Ninguém pode fazer por nós o que só nós podemos fazer por nós mesmos. Difícil? Nem tanto.

Funciona como um exercício de autocontrole, para pensarmos em algo realmente possível que é o que faz com que casais durem. Respeitar as diferenças e deixar que cada um seja o que se é. Sem invenção, sem falsas promessas, sem falsos moralismo e claro, sem idealizações.

Precisamos ou de fato sufocaremos os amores? Será que alguém agüenta que a gente exija tanto, todo tempo?

O que temos para dar? Será que somos também o que a outra pessoa queria ou por amor ela nos aceita tal e qual fomos fabricados?

Uma das razões mais conhecidas para a frustração é a carência. Confesso que nesse mundo altamente conectado acho que as pessoas clamam mais e mais por atenção.

Talvez eu seja uma delas. Não sei se clamo por atenção, mas que sou carente. Idealizei um príncipe que nunca chegou. Ops. Pera aí, chegou sim, com seus inúmeros defeitos que me fazem feliz.

Não me faltou amor em casa e tive ótimos e bons namorados, mas isso não curou essa falta de afeto e angustia dentro do peito.

Na verdade morri a cada desilusão amorosa, mas com a maturidade descobri que ninguém foi culpado a não ser eu mesma, idealizei pessoas e fiquei mal porque não correspondiam ao que esperei – ou melhor- não tinham as qualidades que eu construi.

No fim, de quase todas as relações, sabemos que ligamos aos amigos para ouvir somente o que queremos. Que lógico, a culpa é do outro. Que você é uma santa e fez tudo que pode. Mas meu bem, a vida não funciona assim. Se tiver sorte de ter bons amigos, como eu tive, entenderá que muitas vezes a culpa é só sua.

Você poderia ter deixado para lá algumas latas de cerveja pela casa, poderia ter deixado para lá algum eventual encontro que ele desmarcou. Você poderia ter deixado para lá se ele não te ligou para te chamar de “bebezinho”. Poderia ter evitado ele te convidar por educação para o aniversario do avô de 99 anos.

Você poderia ter não cobrado flores, as mais insossas rosas vermelhas. Poderia ter deixado para lá tanta coisa, mas você queria… Queria treiná-lo e dominá-lo. Acabou sendo a surtada chata de galocha. Sem mais delongas é preciso aprender a engolir sapos ou está condenada a solidão.

Queria que ele falasse da lua, que citasse Drummond, que cozinhasse que soubesse escolher vinho, que soubesse lavar roupa e que fosse rico. Mas ele tá meio pé rapado, gosta de comer salgadinho e só toma cerveja barata…

E daí?

Você esqueceu de ver se ele era carinhoso, se te faz rir, se é honesto, se gosta de você e se topava se aventurar e a ficar em sua vida. Por isso digo e repito a carência traz exigência, à exigência traz o egoísmo.

Você parou para se perguntar se com você tudo vai bem? Se você tem algo a oferecer melhor que “nãos” e beleza física. Você parou para perceber se dá mais valor ao amor ou as coisas que você necessita que provem a você que “tu é foda”?

O que queremos é que a relação seja leve. Então pegue leve. Talvez esteja na hora de repensar a tua espera. Talvez seja o momento de repensar o que vale mais a pena. Claro, sempre faremos exigências, mas talvez alguém coloque a baixo toda essa sua carcaça e você perceba que o bom do amor são também suas variações.

Já que ninguém é mesmo perfeito, quais defeitos você se desafia a nem ligar. Quais deles são insuportáveis. O bom é nunca tentar mudar ninguém, não sufocar seu parceiro e ser flexível.

Nada é tão bom quanto aprender com o outro que a vida é boa, é leve, é tranqüila e que está tudo bem sair de casa sem arrumar a casa, sem passar a camiseta, atrasar sem querer uma conta… na boa. Pegue leve com você e com seu amor. E lembre-se você também tem infindáveis defeitos.

E aí, vamos melhorar? Ou vai continuar dizendo “ sou assim quem quiser ….”?

 

 

 

 

 

 

 

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