Saturday, 30 de May de 2020

Mais de trinta

Que tipo de leitor você acha que é?

Que tipo de leitor você é?

Que tipo de leitor você é?

Meus ouvidos agora estão sempre ocupados, mas quem repara o mundo são meus olhos.

Leio tudo que posso. Diariamente.

Aflita.

Quando foi que nós leitores ficamos tão chatos?

Sigo os jornais e revistas que gosto, autores, artistas, piadistas, economistas– só quem gosto, embora, às vezes, tenha que ler apenas para em manter informada. O nosso conhecimento é nosso bem.

O Google facilitou a nossa vida, não existe nada que não podemos procurar. Mais que isso, não existe nada que não podemos ficar sabendo. Só sinto que “quase “ todas as informações que passamos a diante me lembra aquela brincadeira “telefone sem fio”.

Só sigo aquilo que tenho vontade. Leio apenas aquilo que tenho vontade e também filtro só o que me dá na telha. Esse é o novo leitor.

Primeiro o leitor de internet é um baita preguiçoso- tudo bem, não vou generalizar. A internet é rápida e busca novidades quentinhas, em 1 hora a notícia fica velha…

Por isso, sinto dizer, você pode ler coisas cretinas que eu escrevo, mas eu prefiro que se não gostar de mim, escolha então ler outra coisa.

Não tenho problemas com críticas, mas as pessoas passam dos limites. Nunca aconteceu comigo nada demais, mas com amigos escritores já vi cada coisa…

Outro dia percebi que o mundo andava chato. Ao mesmo tempo em que eu tinha acesso direto a tudo, não me surpreendia mais com nada. Não havia mais nenhuma novidade que conservasse aquele sentimento de surpresa. Eu queria novidade…

Na verdade não tinha mais nada que eu não pudesse saber, mas sendo assim, no meio a tanta informação, me senti um tanto burra. Passava tanto tempo conversando pela tela com meus amigos, que os assuntos quando nos víamos pessoalmente perdiam seu valor.

Quando foi será que a companhia deles ficou chata?

Será que nós fazemos questão da presença física ou nos acostumamos em sermos pessoas fictícias nas redes sociais e não gostamos de nós mesmos?

Outro dia, em pleno domingo em um lindo final de tarde, eu e meu namorado fomos comer um hambúrguer e tomar umas em uma hamburgueria conhecida da cidade. Lá estava uma família aparentemente bonita- sem cachorro. Pais e filhos e um momento, domingando, e eu que imaginava que queria compartilhar o momento, percebi que mal se olhavam. Nenhuma interação bem sucedida entre eles, principalmente quando o filho menor dizia que havia conseguido passar de fase no seu joguinho no tablete, é claro.

Fiquei pensando quando será que aquela família perdeu o prazer em estarem reunidos, achei triste. Por ironia, meu namorado sentou e pegou o celular, ali estava minha sentença. Será que ele também havia perdido o doce prazer da minha sutil companhia?

Quando foi que pedir para alguém sair do celular virou briga, virou exigência. Quando foi que virei uma chata vintage?

Sou uma usuária compulsiva, trabalho com o poder que a internet nos deu. Sou sua refém. Mas continuo sendo aquela que defende a leitura de um bom livro no parque, aquela que defende bilhetes, cartas, post its – desenhados e papéis escritos à mão.

Eu sou aquela que tem medo de dizer que sabe tudo, eu sou aquela que morre de vergonha de ter uma opinião formada sobre tudo. Eu sou aquela que morre de vergonha alheia com as barbaridades que leio nas redes sociais. E agora em época de eleição é cada asneira.

Sou aquela que morre de medo de passar uma informação para frente sem confirmar.

Sou aquela que não quer ser do contra nos post alheios, só pelo prazer de ser chata.

A gente só esqueceu um detalhe, que lógico que não somos obrigados a concordar com ninguém, mas devemos manter a política da boa vizinhança. Respeitar o que o outro tem a dizer, a individualidade de cada um, suas crenças e tudo mais envolvido.

O leitor anda chato de galocha. Desinteressado e até ouso dizer, ignorante. Eu li, eu sei, eu vi.

Mas o que vejo são papagaios que repetem com louvor qualquer trecho de algo que leu, não tiveram a paciência de ler a crônica inteira, só às partes destacadas e as aspas. Mas não esqueçam, todos querem dar sua opinião.

O leitor virou um cara bocó. E não porque ele é super intelectual desses que também são chatos, mas porque ele não consegue filtrar as informações que chegam até ele.

O mundo está cheio de gente que não sustenta mais de 5 minutos de conversa. O mundo está cheio de gente que não arreda o pé, que não tem a humildade de dizer “Puxa, isso eu não li” – “Puxa, isso eu não sei”.

Confesso que dou boas risadas com as coisas que leio por ai. Eu nem sabia que tinha tanta gente engajada como são as frases de auto-ajuda. Fiquei feliz porque até frase minha foi assinada por várias pessoas. Ahhhh , não sei se fico triste ou feliz.

Bom, acho que esse é o direito. Cada um pode postar o que quer e assim mesmo, ouve o que não quer.

Quando eles não precisam se indetificar então, como foi o caso desse aplicativo novo, vemos a crueldade estampada. O anonimato dá um poder pervertido à gente sem escrúpulos e acredito que apenas floresceram devido às oportunidades.

Eu sou vítima constante. Amo escrever sobre amor e os percalços da vida. Queria dizer que quem acha chato que não me siga, não leia. Mas as pessoas são incapazes disso, elas querem mais…

Querem deixar lá, cravado a opinião delas, ou a falta de uma. Agora você precisa tomar cuidado se chama alguém na internet de “moreninho” – pode soar pejorativo. Você não pode postar selfie, porque isso justifica a falta da sua vida sexual. Você não pode falar que está cansado de trabalhar, porque seu chefe está de olho em seu perfil…

Se alguém escrever aqui embaixo do meu texto que acha isso um barato, eu juro. Paro de escrever amanhã e arrumo outra profissão!

Cada texto que escrevo rende algumas mensagens “você está bem” – “““ terminou o namoro” – “vai casar”. Calma gente, sempre digo que nem tudo que escrevo acontece na minha vida real, mas acontece na vida que vejo por ai. Outro dia escutei que me exponho demais em meu facebook. Porque eu não posso ser separada entre as duas coisas, tem gente, por exemplo, que tem perfil artístico e nem artista é. Faça-me o favor né!

Eu nem sabia que a gente gostava mesmo era de cuidar da vida do outro, de se exibir, essas coisas aí. Achei que a gente queria mesmo era só ter acesso à informação, conhecer o mundo sem sair do lugar, fazer os trabalhos da faculdade usando “crtl”. Mas não, nós queremos mais.

E vou usar o “nós” porque estamos todos no mesmo barco, “certo”? Somos uma parte, pequena ou sei lá, dos que gostam de ouvir apenas o que queremos. Nós nem lembramos mais como se escreve coincidência, porque nem sabemos mais como é pegar uma caneta na mão. Mas somos salvos pelo corretor, que tudo bem, ele manda algumas coisas engraçadas pelo whats, mas é permitido.

Em um mundo onde tudo ficou mais permissível, suponho que faltar conteúdo é só também uma questão de opinião.

Queria dizer que eu não sou sempre simpática, não acordo de maquiagem, como muito mais do que as fotos que posto do meu instagran e metade do meu suco verde jogo na pia. Eu já traí um namorado, eu tenho terríveis defeitos, mas eu continuo postando “MAIS AMOR POR FAVOR” e estou aqui sempre, implorando para você gostar de mim, porque o importante não é ter apenas cinco bons e melhores amigos, nós queremos ter 2000 seguidores. Amigo não serve para nada mesmo…

Que triste esse novo mundo. Esse mundo que não sei como vou esconder dos meus filhos, esse mundo que terrivelmente faço parte, e claro, coopero para que ele seja assim, tão fake quanto as nossas opiniões.

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