Thursday, 17 de January de 2019

Mais de trinta

Pessoas, comportamento e absurdos

O que anda acontecendo com o comportamento as pessoas?

O que anda acontecendo com o comportamento as pessoas?

Está em todas as bocas, em todos os lugares, todo mundo impressionado, ninguém consegue entender: o que anda acontecendo com estas pessoas que são capazes de linchar uma jovem até a morte?

Quem são estes monstros que se distanciam tanto da vida, tão alienados, que passam pelo mundo tão mecanicamente que acabam acreditando que não há valor qualquer (a não ser naquilo que se pode pagar, claro)?

Não sou do tipo que acha que o mundo está piorando. Ao contrário, melhoramos muito! Até há um tempo, fumar era chique; dirigíamos em alta velocidade sem cinto de segurança; ninguém se preocupava quando saia para beber e, logo após, de porre, pegava o carro; as jovens mães não amamentavam porque “o peito caía”; praticar esporte era coisa de gente “dãn”; não havia lei Maria da Penha, e as crianças, via de regra, levavam surras como se fossem pessoas grandes. Portanto, melhoramos sim!

No entanto, pelo menos no Brasil, que é de onde tenho mais informações, parece surgir a cada dia uma nova parcela de monstros.
Filhos da subalfabetização, criaturas que foram levadas a acreditar que o acesso ao crédito lhes garantiria “direitos de cidadania” — uma ideia de cidadania que está só em seus juízos deturpados e que acha que é seu “dever cívico” fazer o papel do Estado, que, aliás, é incompetente —, estes frankensteins da moralidade ainda contam com o acesso à internet para criar e publicar qualquer absurdo que venha de suas mentes.

Mentes criadas com peças aleatórias que incluem desde programas de televisão (novelas e telejornalismo), de baixíssima qualidade, até ideologias religiosas que, embora se digam cristãs, ainda defendem a lei de Talião — com uma roupagem mais mercadológica, evidente.

Pessoas assim, destituídas de valores éticos, e entupidas de um moralismo barato e incapaz de ver, creem definitivamente que estão fazendo um bem ao mundo ao linchar e matar o outro. E não importa quem seja este outro desde que sua gana por violência (sim, somos uma sociedade muitíssimo violenta!), e seu desejo obtuso pelos quinze minutos de fama (porque nada é melhor do que aparecer no jornal das dezoito, né?), possam ser saciados.

Pior, entre a criação do estigma sobre qualquer um de nós, qualquer um de nós, insisto, e o homicídio de um inocente o tempo é menor que os quinze minutos: basta que um irresponsável qualquer poste uma bobagem na internet, e que um grupo de boçais cheios de si e sem o mínimo de noção do que seja viver em grupo acredite, para que a barbárie esteja instalada. Milhares de anos de evolução social jogados pelo ralo por um ajuntamento de selvagens.

O professor José de Souza Martins, sociólogo, professor da Faculdade de Filosofia da USP, em um esclarecedor artigo publicado pelo Estadão no dia dez de maio (vale a pena ler), nomeia estes “vingadores” de “Seres sem rumo” e justifica: “Seus conteúdos ocultos (conteúdos que estão por trás dos linchamentos) são expressões de uma sociedade que vem perdendo as referências”.

Por mais que concorde com a fala geral do professor, neste momento, talvez por estar enojada demais — e por não estar escrevendo um artigo científico — não creio que estas ações desumanas sejam expressões de uma sociedade descontrolada, ou que esteja perdendo as referências. Infelizmente para nós, o que parece é que esta sociedade tem referências sim, as piores referências, aquelas que nos transformam em marionetes da falácia do discurso onde o que importa é o que parece e não o que é.

Ana Issa é socióloga, pós-graduada em Teoria da Comunicação e Comunicação e Mercado.

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