Monday, 09 de December de 2019

Mais de trinta

Razbliuto

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O término de qualquer tipo de relação seja uma amizade, um relacionamento amoroso ou qualquer outra é sempre doloroso. Ainda que saibamos que é o melhor caminho a seguir, que é o melhor a ser feito, que é muitas vezes a única solução possível, ainda que não haja mágoas, é sempre difícil um rompimento.

Nos acostumamos com a presença do outro em nossas vidas, com suas manias, seu jeito, seus defeitos. E quando isso acaba resta o vazio. Até mesmo dos defeitos se sente saudade. Aliás, a saudade é uma palavra que não é traduzível. Saudade é um sentimento, uma sensação e como já definiram, é o amor que fica ou o sentimento que quando não cabe no coração, escorre pelos olhos. De qualquer forma, é puramente sentimental, sem razão alguma. E muito embora não se possa dizer que saudade é algo ruim, é inegável que há uma certa dor em sua essência.

Mas os sentimentos mudam, a vida muda e uma hora o que era saudade deixa de ser, o que era amor muda, mas por incrível que pareça, não se torna mera indiferença. Fica uma espécie de incômodo. Como posso sentir carinho por alguém que me fez mal? Que nos machucou? Que amamos tanto? Será que é amor? E fica tudo muito confuso, como se fôssemos obrigados a simplesmente deletar as pessoas que amamos da nossa memória, da nossa vida, da nossa história.

Mas isso é impossível! Não se deleta pessoas, emoções, coisas vividas de nossas vidas. Pode se passar muito tempo, mas elas continuam lá embora nosso sentimento por elas possa mudar. Penso que é impossível ser indiferente a uma pessoa que fez parte, que foi importante em nossas vidas. Se algum dia tivemos um sentimento verdadeiro por essa pessoa, jamais seremos indiferentes a ela e seu sofrimento.

Por mais sofrimento que tenha nos causado, depois que isso passa, que as coisas são processadas acho impossível nos tornarmos indiferentes. Embora quase sempre fosse o desejável, principalmente quando não há qualquer reciprocidade. Sentimentos não são cartesianos, exatos, matemáticos e por essa razão, muitas vezes não dependem de reciprocidade. Algumas pessoas simplesmente são incapazes de manifestarem sentimentos, outras não querem sentir, não querem demonstrar, reprimem pelas mais diversas razões.

Então, há alguns dias, através de um texto que um amigo compartilhou em sua rede social, consegui expressar o inexpressável, classificar o inclassificável até então. Consegui encontrar a palavra exata que define esse sentimento (e nós brasileiros sempre nos julgamos superiores por sermos os “donos” da palavra saudade) em uma palavra de origem russa que significa em sua tradução o sentimento carinhoso que nutrimos por uma pessoa que um dia amamos. Quando não restou vontade de ficar junto, atração física, paixão ou amor. Quando tudo se tornou calmo e morno, perene e suave é o que restou depois do fim. Razbliuto é o sentimento destinado àquela pessoa que é o melhor dentre tudo o que não aconteceu, dentre todas as possibilidades que não foram, é o que fica quando tudo já deixou de ser.

Um amigo disse que trocaria saudade por Razbliuto facilmente… e quem não trocaria?

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