terça, 19 de setembro de 2017

Mais de trinta

Desterrados: Uma história de zumbi em São Paulo – Capítulo 5

Capítulo 5

Havia anos que Carlos não trafegava por Pirituba. Com os vidros da viatura erguidos e enclausurando o ar dentro do carro, que mesmo viciado era melhor que o odor nauseabundo que emanava da rua Benedito Costa, lavada de sangue fresco, corpos e carros abandonados. Enquanto dirigia em velocidade de 20 quilômetros horários, Carlos mantinha os olhos vigilantes, alternando entre o caminho à frente nas janelas das casas que flanqueavam seu veículo. Se visse um sobrevivente, talvez oferecesse ajuda.

Enquanto descia a rua com a mente tentando organizar o que havia ocorrido nos últimos dias, o prisioneiro viu com o canto dos olhos um movimento dentro de uma casa e parou o carro. Estava anoitecendo e aquele não era um bom local para ficar estacionado, mas talvez houvesse alguém. Segurando firmemente a arma na mão direita, que transpirava de nervosismo, Carlos abaixou a janela e aguardou. Nada. Bom, ele havia parado.

Quando o vidro começou a subir novamente, ele viu o vulto se mexer da esquerda para a direita. Era um volume pequeno, pouco mais que o tamanho de um rosto e, pelo que parecia, estava espinhando no canto da janela e acabara de se encolher atrás da cortina outra vez.

O antigo Carlos diria que a pessoa deveria se foder, mas a perspectiva de deixar para traz um possível sobrevivente não era convidativa, afinal ele passara anos atrás das grades e longos dias em uma solitária. Ele queria falar. Ele precisava.

Freio de mão puxado e com a chave da viatura no bolso, Carlos desceu do veículo e fechou a porta silenciosamente, olhando para os lados. Nada atrás dele, sinal que a estratégia de descer a rua em ponto morto, sem acelerar, funcionou. A passos largos, ele se aproximou do portão da casa que chamou sua atenção. Encostando no muro amarelo, ele inclinou levemente o corpo para o lado e espiou dentro do quintal, deixando transparecer somente um pedaço diminuto do rosto. Vazio, nada além de uma bicicleta estava presa por uma corrente a uma das colunas que sustentavam a laje do segundo andar.

Enquanto respirava da forma mais silenciosa que conseguia, o prisioneiro tentou se lembrar de alguma vez em que tentara ajudar ou resgatar alguém e para seu espanto não lembrou. Naquele momento, toda sua filosofia de abandonar os outros e não ajudar ninguém além dele mesmo pareceu algo muito pequeno e mesquinho, embora ele não conhecesse o real significado da palavra. Imerso em pensamentos e sentindo o bater do coração pressionar seus tímpanos, Carlos moveu-se para dentro da garagem e abandonou a atenção das ruas. Suavemente e pisando de forma macia, deslocou-se até a porta que dava acesso à sala.

A porta era de uma madeira barata coberta com verniz claro descascado, mas estava intacta e fechada. Com a pistola na mão, Carlos sabia que devia se decidir. Ficar na rua era um convite para o desastre. Ele precisava ir ou voltar, não havia meio termo. Voltar significava a segurança de uma viatura com gasolina no tanque, mas também era o retorno da solidão, dos pensamentos em voz alta e também do abandono à esperança. Em um mundo onde não havia outros como ele qual era o objetivo de viver? Com a ausência da polícia sumia também todo o conceito de propriedade privada, ou seja, seu meio de vida estava acabado.

Mais forte que isso, ele lembrava na pele a agonia de ficar trancado em um lugar abandonado à própria sorte. Lembrava do que sua velha avó dizia… “Se você acredita em Deus, então tem que acreditar também no diabo e no inferno”. Aquelas criaturas andando com as tripas de fora era o melhor sinal para um homem de que havia chegado a hora de andar no caminho dos justos novamente, senão…

E ele então abriu o portão que estava encostado e entrou no quintal, cruzando rapidamente os poucos metros abandonados que o separavam da porta de madeira. Duas batidas leves com os nós dos dedos da mão esquerda e uma voz baixa: “tem alguém aí? ”. Não faria mais barulho que isso.

Foi suficiente. Do outro lado uma voz rouca e fina respondeu, levando Carlos a dobrar os joelhos para ter a certeza que estava na altura da fonte emissora: “Quem é você? ”.

– Eu sou o Carlos. Tem mais alguém aí?

– Você é da policia, moço?

– Não, nem fodendo… E então Carlos olhou para a viatura no meio da rua. Era óbvio que aquela pergunta tinha fundamento. – Eu achei o carro. Escuta, eu não posso ficar muito tempo aqui fora. Você está segura aí? Precisa de ajuda?

– Eu?… Silêncio por alguns segundos, junto com o barulho de alguma coisa arrastando de leve no chão. Talvez a sola de um sapato ou alguma outra coisa, Carlos não conseguiu se decidir. – Eu estou bem…

– Você tem o que comer garotinha? Seus pais estão com você? Precisa de ajuda? – Ao falar aquelas palavras, Carlos se deu conta que algo havia mudado nele. Não se lembrava qual havia sido a ultima vez em que havia oferecido ajuda para alguém sem querer nada em troca.

– Eu tô com fome, minha mamãe comeu tudo… O papai foi buscar mais comida, mas ele ainda não voltou. Você viu meu pai? – A voz parecia um pouco insegura a respeito do que estava sendo conversado ali fora – Não tem mais mãe, acabou!

Carlos visualizou em uma fração de segundos toda a destruição vista no caminho que o levou até ali. Carros batidos, corpos pelo chão, algumas casas em chamas e zumbis vagando ao largo, alheios ao deslocamento da viatura. Existia a probabilidade muito alta de que algum daqueles corpos errantes ou desfalecidos e despedaçados a mordidas no chão pertencesse ao pai daquela criança. – Não vi ninguém vindo para cá. Escuta menina, eu não posso ir, você quer vir comigo ou ficar aqui?

– Sai mãe! Para! Para! Eu já falei que é feio morder! Socorro, moço! Socorro! – E então um barulho de fechadura se abrindo soou nos tímpanos do ex-prisioneiro, que agora se levantava e erguia a arma, engatilhada e pronta para executar qualquer coisa. Sim, era uma menina que estava ali dentro, mas um cachorro velho dificilmente aprende novos truques e, de qualquer maneira, era bem possível que aquela fosse uma armadilha e que quem quer que estivesse ali dentro estivesse simplesmente tentando matá-lo para ganhar uma arma e uma viatura com gasolina.

Quando a porta abriu, Carlos foi imerso em dois sentimentos. O primeiro era que do outro lado da madeira estava o que restou do lar de uma família de classe média baixa. Móveis pré-fabricados e vendidos no shopping adornavam a sala suja. Uma garotinha negra que vestia uma calça de moletom cinza e uma blusa do Santos que provavelmente pertencia ao pai dela estava encostada no canto da sala, entre a parede que dava frente para a rua e a parede oposta à porta. Seu olhar de completo pânico complementava o segundo sentimento, o olfato. De dentro da casa veio uma lufada de ar acre, um concentrado do odor que era agora a característica do oxigênio de São Paulo: a podridão.

A visão do terror da criança e o fedor vindo de dentro da casa dissiparam qualquer temor que Carlos teve. Dando três passos decididos para dentro da casa, o criminoso imediatamente virou-se para fitar a razão do terror da criança. Entretanto, ao fazer o movimento, Carlos escorregou em uma poça de agua, sangue e urina no meio da sala.

– Caralho! – Do outro lado da sala, acorrentada com uma ligação de dois metros ao corrimão da escada, uma mulher negra de aproximadamente 30 anos estava com os braços esticados, tentando agarrar e unhar o homem caído ao chão. A distância que os separava era de aproximadamente um metro.

Imediatamente veio à mente de Carlos a visão do que aconteceu ali. O pai saiu para buscar mantimentos para a filha e, na esperança de deixar a prole em segurança, fez uma armadilha com a esposa que havia virado morta-viva e continuava em pé, mesmo com as tripas escorrendo da barriga de um buraco, que provavelmente havia sido feito por uma mão. A pessoa que entrasse naquele cômodo desavisado provavelmente cairia nas mãos da mulher, que não tinha uma bochecha e nem um pedaço do pescoço, arrancado a dentadas.

– Para mãe! Para mãe! Ela vai fugir, a escada está quebrando! – Aos gritos da menina, que chorava e engolia o ranho do seu desespero, Carlos mudou o foco da visão de um verme que caia do ferimento da bochecha para o pé da escada. O balaústre de madeira aonde a corrente estava presa estava quase soltando do chão devido aos trancos que a morta-viva dava ao tentar atacar a filha.

BAM! Um único tiro explodiu o tampo da cabeça da mulher, que como um fardo manuseado por um estivador simplesmente foi ao chão. Junto com a queda do corpo, a criança levantou-se e correu para acudir a defunta. – Mãe! Mãe! Você matou ela! Mãe! Mãe! – E a criança chacoalhava o corpo sem vida e pútrido ao chão.

Não havia tempo a perder. Carlos olhou em volta e pegou uma almofada que estava largada ao chão. Usando a ponta da mesma como um pincel, o homem mergulhou a mesma no sangue e na urina que o fizeram escorregar e escreveu na parede rapidamente, tentando obliterar da mente a menina dando tapas no rosto em sangue da mãe.

“Salvei sua filha. Estou indo para a avenida Paulista, na rádio Kiss FM. Busca ela”.

Após largar a almofada, Carlos deu uma olhada rápida em volta. A casa estava uma zona com móveis virados, pacotes de bolacha, salgadinho e sacos de carne que deviam estar congelados todos largados no chão. Não valia a pena revistar o local. Com dois passos rápidos, ele passou a arma para a mão esquerda e abaixou, segurando o braço da menina. – Essa não é mais a sua mãe! Você sabe disso! Os bichos devem ter ouvido o tiro! A gente precisa sair daqui! Vem! Você vai comigo!

Tentando lutar, mas no fundo cansada de ficar sozinha, a menina puxou o braço duas vezes, mas não ofereceu resistência. Tudo o que ela queria agora era sair daquela casa e de perto do corpo da mulher que a colocou no mundo e que a amou, mas que também tinha que ser alimentada na boca com um cabo de vassoura, e que tentava morder e agarrar ela sempre que a criança se aproximava.

Pegando a criança no colo, Carlos virou-se e saiu da casa, ganhando o quintal rapidamente. Ali, parou e encostou no muro. – Shh… – E imerso no mais puro silencio, escutou o que a rua tinha a lhe dizer. O barulho de pés arrastando e gemidos estava presente, vindo de todos os lados. Eles haviam chegado.

Com passos decisivos, Carlos chegou à calçada e olhou para os lados. A viatura continuava estacionada no meio da rua, parada com as rodas da frente encostadas a uma lombada que ele não havia notado. A sua direita a rua formava um longo corredor. Do lado esquerdo um terreno com um muro imenso cercava uma casa que aparentemente estava fechada e intacta e na direita diversas casas estava com seus portões fechados ou fechados em uma ordem caótica. Daquele lado da rua Carlos contou aproximadamente 13 zumbis se aproximando vagarosamente, braços esticados e sedentos por sangue.

A sua frente, do outro lado da viatura, um imenso terreno baldio que terminava em uma quadra de futebol de terra pegava fogo preguiçosamente. Não havia nenhuma ameaça vinda dali, não que ele pudesse ver.

Na esquerda não era possível ver muita coisa, pois a rua fazia uma leve curva em barriga e isso ocultava a visão a longo prazo. Ouvir, entretanto, ainda era possível e os gemidos carnívoros vindos dali davam a certeza absoluta que ali também encontraria predadores.

Carlos colocou a arma na cinta e tirou a chave da viatura com a mão esquerda, ainda mantendo com o outro braço a criança agarrada ao corpo. Ganhando terreno rapidamente, ele foi até o carro, enfiou a chave na fechadura e abriu o carro, colocando a garota no banco do motorista. – Chega pra lá! Rápido! – A garota obedeceu, pulando para o banco do carona e colocando o cinto assim como havia aprendido com o pai.

Ao entrar no carro, Carlos fechou a porta atrás de si e abaixou o pino, travando os dois ali dentro. Chave na ignição, pé na embreagem e logo o carro estava ligado, funcionando. Engatando a primeira, Carlos logo tirou a arma da cintura e colocou a mesma sobre o colo, apenas como precaução.

Do carro era possível ter uma vista melhor da curva que era oculta da casa, mas perfeitamente visível a bordo da Blazer M-15240 da Força Tática da Polícia Militar de São Paulo.  Mais de vinte mortos-vivos avançavam na direção do carro. Um cálculo simples mostrava que atropelar todos eles não era uma boa ideia, ainda mais pela baixa velocidade que ele conseguiria alcançar até o choque.

Virando o volante para a direita, Carlos subiu com a viatura na calçada e adentrou no terreno baldio que pegava fogo em alguns lugares. – Para onde? Da para atravessar aqui? – A garota tirou o cinto e levantou no banco, apoiando no console central da caminhonete. – Dá! Lá, ó! – Com o braço para a direita, ela apontava para uma direção que ladeava um muro de cimento aparente, que ladeava a casa que transformava a rua em um corredor. – Vai para lá, é outra rua! Lá – Apontava um pouco mais à esquerda – É um rio!

A informação era suficiente e o bandido levou a viatura naquela direção, evitando passar em cima de entulho e outros focos que ainda pegavam fogo. A travessia foi tranquila e pelo retrovisor era possível ver que os mortos-vivos estavam com fome, mas não gostavam de fogo, pois eles pararam na calçada.

Olhando para frente novamente, Carlos chegou ao outro lado do terreno, com o carro embocado na calçada da outra rua. Embora fosse possível ver um ou outro zumbi ali, a situação era claramente melhor do que de onde ele acabara de sair.

Para esquerda, ele iria se embrenhar em ruas residenciais. Para direita, ele teria que ladear o imenso muro, que agora era claro que pertencia a uma escola, e subir indefinidamente em direção contrária à avenida Paulista.

A contragosto, Carlos virou o volante para a esquerda e entrou na rua Silvestre de Almeida Lopes.

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