sábado, 21 de janeiro de 2017

Mais de trinta

Desterrados: Uma história de Zumbis em São Paulo – Capítulo 01

CAPITULO 1

Durante os primeiros dois dias, Carlos pensou que fosse somente mais um castigo. Ele estava acostumado àquele tipo de tratamento por parte dos policiais. Era somente mais um passeio ao “terapeuta”, eles diziam. Era somente mais uma visita à merda da solitária, ele dizia. Durante aquelas primeiras 48 horas ele entrou em um estado de hibernação. Depois de mais de dez anos encarcerado e “terapias”, ele aprendeu que pensar na vida é a pior solução.

Carlos dormiu, fez alguns exercícios, contou até mil e depois até zero novamente. Normalmente na manhã do terceiro dia alguém aparecia com uma mangueira ou um balde de água, mas não daquela vez.

– Eu contei certo, eu tenho certeza! Hoje era o dia! – E então o presidiário sentou-se com as costas na parede mais quente, a que ele tinha certeza que dava destino à liberdade. Como não tinha luz do sol e muito menos um relógio, Carlos tinha conhecimento dos giros do relógio através da contagem de quantas vezes a parede esquentava e esfriava.

Se as contas estivessem realmente corretas e aquele fosse o terceiro dia, havia alguma coisa errada. Talvez fosse um castigo mais severo, afinal espancar outro prisioneiro até os ossos da face virarem geleia era algo grave. Principalmente se isso fosse feito no pátio, justamente no dia da visita. Talvez fosse isso, tinha que ser.

O que Carlos não sabia era que ele não estava sendo punido, não havia castigo algum. Bem, não um feito propositadamente pelos guardas do estabelecimento educacional falido instituído pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Naquele exato momento, o guarda responsável pela tranca da porta estava ocupado com outra atividade: comer as tripas do detento número 45936-J.

Fome. Fome. Três dias sem comer nada, absolutamente nada. Para Carlos o problema não era a barriga vazia. Ele já morara na rua durante alguns anos, estava acostumado a não comer nada. O choque problema ali era psicológico. Naquele momento Carlos teve a total certeza de que as pessoas que faziam greve de fome não eram nada além de completos idiotas. Não querer comer era uma coisa, não poder comer era outra totalmente diferente.

O presidiário olhou para os dois lados da cela e, obviamente, não enxergou absolutamente nada. Aquela cela era mais escura que o cu de um morcego voando. Ratos, ratos. Era preciso fazer um estoque, ele não sabia até quando ficaria ali e duvidava que comer um pedaço da coxa, como dizia aquela piada de náufrago, fosse apetitoso. Ele imediatamente se jogou no chão e encostou o ouvido ao solo. Nenhum “squich”, nenhum nada, não havia passos, não havia xingamentos.

– Isso não é normal, não é normal. Pensa, Carlos, pensa. Se vim para cá no domingo e já passou três dias, então hoje é quarta-feira… hoje é dia de carne cozida… aquela merda de carne! A carne! – E lá foi ele novamente, mergulhando ao chão. A carne cozida significava mal arranjo intestinal, o que era quase sinônimo de diarreia. Com o ouvido ao chão, ele constatou que estava fodido. Durante mais de meia hora o presidiário não ouviu uma única descarga. Ele estava sozinho ali dentro.

Ele sabia que gritar dentro da solitária era um problema. Se ele pudesse falar com alguém, teriam dado um companheiro de cela para ele. Essa foi uma lição aprendida da pior maneira, assim que chegou ali. Mas naquele momento ele preferiu arriscar, afinal era melhor apanhar de alguém que morrer de fome. No pior dos casos, era melhor comer a coxa dos outros e não a dele.

– Alo! Tem alguém aí? Socorro! Direitos humanos! Eu vou chamar os direitos humanos! – E parado em frente à porta de ferro, Carlos golpeou a superfície de metal com a lateral dos dois punhos fechados. – Socorro! Abre essa porra! Alo! Alo! Tem alguém aí? – E é claro que ninguém atendeu, ninguém respondeu.

Carlos sentou-se novamente no chão da sua cela e começou a pensar no que tinha a disposição: uma cama de concreto colada à parede, apoiada por dois pés de concreto, um colchão e travesseiro de espuma, um lençol e um pote de plástico onde ficava a água dele. Nada para cavar, nada para perfurar.

O prisioneiro então puxou o colchão para o chão, com força, sem cuidado nenhum. Carlos não sabia ainda, mas dormiria aquela noite cheirando os odores dos seus próprios dejetos.

Com o colchão no chão, o prisioneiro subiu no cimento que tinha por cama. Deu uma pisada forte, com o calcanhar. Sentiu tremer e ouviu o barulho, mas nada de quebrar. – Vamos, puta merda! – E deu um pulo com força. Se aquilo quebrasse, ele poderia usar um pedaço do concreto para golpear a porta. Talvez ela cedesse, talvez conseguisse um trinco. Pulou novamente, pisou e nada. Suado, cansado e agora morrendo miseravelmente de sede, Carlos sentou-se.

– Idiota! Cacete! Pensa, Carlos! Pensa! Vai ver teve rebelião… os caras devem ter brigado lá e acabaram esquecendo de mim… é isso… – E então, como se tivesse dito aquilo para disfarçar sua real intenção, ele correu e se jogou contra a porta. Um estrondo alto, que deve ter se propagado por todos os corredores próximos. Suado, cansado, com sede e agora com o ombro terrivelmente dolorido, talvez deslocado, Carlos sentou-se contra a porta. Estava torcendo para alguém ouvir aquilo. Os companheiros tinham celulares nas celas e os faxineiros eram chegados. Talvez alguém tivesse ouvido e pudesse ligar para os direitos humanos.

E não é que Deus existia? Alguém estava olhando pelo presidiário lá de cima. – Que porréssa? Tem alguém aqui! – Cerca de um andar acima dali, Tomás ouviu a pancada. Ele era somente um advogado que estava visitando um cliente na hora errada. Nos últimos dois dias ele estava passando fome, trancado dentro de um banheiro.

Havia visto aquela merda toda começar. Estava de olho na janela do corredor quando o motorista de uma van de entrega simplesmente passou mal ao sair de dentro do veículo branco do restaurante. Com o braço vermelho (Tomás não sabia dizer do que, afinal estava longe e só olhou pela janela enquanto andava, pois era um curioso insaciável), o ferido passou mal e foi ao chão. Imediatamente alguém gritou por um médico e funcionários correram para socorrer ele ao hospital. Tudo havia ficado calmo por algumas horas, até que ouviu uma gritaria enquanto caminhava em direção ao estacionamento. Tomás ouviu palavras como rebelião, briga, ressurreição e, finalmente, zumbis. Bem, ele não era um sujeito muito corajoso e naquele momento, quando sentiu as bolas se encolherem dentro do saco, ele se escondeu dentro de um banheiro e trancou a porta.

Agora estava ali, com fome e morrendo de medo. Dois dias do mais absoluto “silêncio”. Claro, na escola dele de juízo era considerado como não ouvidos gritos de socorro, tiros e barulho de briga. Se ele não ouvisse, não era obrigado a ajudar, e sendo assim, poderia ficar ali dentro. Quieto e sozinho, mas em segurança.

Acontece que o homem era um advogado e essa raça é nascida para falar. Ficar quieto estava acabando com ele. Naquele momento, de acordo com o seu relógio havia sido celebrado o aniversário de 12 horas desde o último tiro e grito. O interior do presídio estava quieto como uma tumba. Literalmente.

Não era possível que tivesse alguém no corredor, mas como dizia seu avô, o seguro havia morrido de velho e de arma na mão. O advogado então parou em pé rente à porta, segurou a respiração e encostou o ouvido à superfície de madeira. Além do próprio barulho das batidas de seu coração ressoando na cabeça, Tomás não ouviu o mais absoluto nada. Até onde ele poderia dizer, ele parecia estar sozinho ali, naquele andar.

Com essa segurança em mente, Tomás girou a tranca da porta do banheiro. O simples “cleck” feito pela trava dentro da porta fez seu cu se retrair dentro da calça. Merda. Merda, aquela era uma péssima ideia. Era a mãe de todas as ideias ruins que ele já teve. – Fodido por um, fodido por mil…

E então o advogado abriu a porta. Para ele foi como se ele fosse um soldado americano desembarcando de um LCT nas praias da Normandia, durante o Dia D. Respirando lentamente, pensando em cada movimento pulmonar, ele ficou parado, esperando para ver se alguém ou algo se movia. Nada, o mais absoluto nada. Durante trinta segundos ele esperou, especulando se o menor barulho aparecia, e nada. Nada de passos, nada de outras batidas. – Agora já foi… – Murmurou Tomás, enquanto escancarava a porta e saia dali.

O corredor parecia a ligação bíblica entre Sodoma e Gomorra. Papéis ao chão, sangue nas paredes e nenhuma janela com os vidros intactos. Assim como a cela de Carlos, o corredor estava na mais repleta escuridão. Tomás pensou em usar o celular como uma lanterna, mas seu instinto de sobrevivência falou mais alto: “se posso vê-los, eles podem me ver”. Foi com isso em mente que ele começou a se mover com a mão direita encostada à parede, locomovendo-se em direção ao barulho, pelo menos de onde ele achava que vinha o barulho.

Naquele instante Tomás ouviu outra pancada, como se algo batesse ou caísse no chão, ele não soube dizer. A única coisa que ele precisou foi a direção: estava indo para o lugar certo. Respirando pausadamente, com os lábios frouxos para não fazer barulho, ele levantava e abaixava os pés a cada passo. Cinco, oito, 10 metros até chegar ao vão que ele lembrava de dar à escada para os andares inferiores. Já havia passado por ali uma vez e sabia que tinha dois destinos por aquele acesso: ao pátio das celas ou, mais longe, à solitária.

Sufocado em um ambiente abafado, com atmosfera estática, sem circulação, Tomás segurou no corrimão e começou a descer em direção ao barulho. Após pouco mais de um minuto, sem saber exatamente quanto ainda faltava para voltar a andar em linha reta, o advogado ouviu um barulho vindo do corredor de onde ele havia acabado de sair. Imediatamente ele parou, sentindo os pelos dos braços arrepiados. Silêncio, ele se forçou a ficar em silêncio. Apurando o ouvido quase de forma canina, ele ouviu um gemido e pés arrastando.

Naquele instante, uma gota de suor pingou de seu queixo. Era pleno dezembro e São Paulo estava um forno. Somado ao nervosismo, sua roupa ficou colada ao corpo em questão de minutos. O que fazer? Se ele ficasse parado, poderia ficar encurralado ali na escada, pois se aquelas coisas estivessem vindo de ambas saídas da escada, não haveria como se esgueirar por aqueles braços, unhas e dentes sedentos. Era preciso ir ou voltar.

E Tomás foi, largou o corrimão e apenas encostou os dedos na parede da escada. Pulando de três em três degraus, o advogado começou a descer a escada no mais completo escuro. A cada pulo, aumentava o eco da sola de couro do sapato social contra o piso frio da escadaria. A cada pulo, aumentava também o gemido e a velocidade de aproximação daquilo que estava no corredor.

Carlos estava naquele instante com a testa encostada à porta de ferro frio da cela. Estava cansado, morrendo de fome e com sono. Talvez fosse o caso de dormir e simplesmente esperar a morte por abandono chegar. Já havia berrado, chutado e batido na porta, era simplesmente impossível atravessar aquilo. Ele então ajoelhou e juntou as mãos, apertando os olhos.

Com a fé que somente os desesperados e os mais fodidos têm, o presidiário começou a rezar para São Jorge, seu padroeiro. Pedia uma luz, uma ajuda, uma ponta de esperança que fosse, não importava o tamanho. Ele preferia se agarrar àquilo do que passar fome e ser obrigado a comer as pontas dos dedos nas refeições. Que São Jorge o iluminasse e ajudasse, ele sabia que era um homem de pecados, mas nunca havia feito nada de errado para crianças e idosos. Se o Santo ajudasse, ele ia parar com aquilo…

– Compro um barco e vou jogar tarrafa lá depois do quebra mar! Cato caranguejo no mangue e até vendo pano de prato no farol, mas me tira daqui meu São Jorge! Por favor…! – E as primeiras lágrimas de arrependimento caíram no exato instante em que os primeiros estampidos ecoaram por baixo da porta. Ele já havia corrido muito da polícia e sabia que aquilo eram os passos de um homem fugindo de alguma coisa ou com muita, muita pressa. Imediatamente Carlos levantou-se e colou o ouvido à porta. Será que um policial havia esquecido dele ali e lembrou-se? Ah, tinha que ser isso, com certeza.

O presidiário limpou as lágrimas com as costas da mão e deitou-se na cama, cruzando as mãos atrás da cabeça como travesseiro. Ele não chorava e não se envergava por uma estadia prolongada no buraco, claro que não. Se o porco estava vindo buscá-lo, então ele iria como um rei, ah como iria.

Quando deu o último pulo na escada, Tomás não viu o extintor de incêndio largado no chão. O advogado simplesmente navegou pelo ar escuro, saindo dos últimos degraus até o objeto vermelho. Perdendo completamente o equilíbrio, ele foi ao chão, batendo com força as costas e a nuca. Sentindo o mundo rodar, ele levou as mãos até o tornozelo. Ele não era nenhum médico, mas dava para ver que estava fodido além de qualquer possibilidade de conserto. Respirando fundo, ele começou a chorar e dar murros contra a coxa. Por que aquilo tinha que acontecer naquele momento? Quem foi o filho da puta que deixou aquilo ali, largado no chão? Ele jurou para si mesmo que processaria o imbecil até os últimos centavos, até o sujeito ter que penhorar as roupas das filhas, ele teria que… E outro som veio da escada. Aquela coisa estava descendo as escadas, ou tentando, pois o que ele ouvia eram barulhos, trancos, não passos.

Virando-se, ele ficou de quatro no chão e começou a rastejar em direção à continuidade do corredor. O som que havia levado ele até ali findou e ele não tinha a menor ideia de onde ir. Atrás, o barulho continuava aproximando-se, agora em um ritmo constante. Provavelmente aquele zumbi filho da puta havia aprendido a descer uma escada, o que não deixava de ser um tanto quanto irônico, pensou Tomás. Um advogado formado pela USP tinha menos aptidão para descer escadas do que um morto-vivo.

Ele precisava ir mais rápido. Após engatinhar até uma parede, ele apoiou-se e fez força contra a mesma, buscando apoio para ficar de pé. Subir até que foi fácil, mas manter-se de pé é que foi complicado. Na primeira vez que tentou buscar um apoio no pé torcido, sentiu uma facada nos nervos que escureceu as bordas da sua visão. Não, ele teria que mancar, era o único jeito. Apoiando a mão direita na parede, o defensor público começou a pular em direção à salvação, sim, pois naquele momento que se fodesse quem estivera batendo por ali antes, ele queria era ir para longe daquilo que o perseguia.

Completamente suado e rezando para todos os deuses que um advogado pode conhecer, Tomás prosseguiu pelo corredor. Sua única forma de visão ali era uma distante luz de emergência que permanecia ligada. Com o dedo ele sentia painéis de informativo, portas fechadas, janelas e alguns interruptores, que não funcionavam mais. É incrível como o desespero aumenta a atenção das pessoas em alguns casos, ou as distrai, como foi o infeliz caso de Tomás. Se naquele exato segundo ele tivesse decidido focar o tato apenas na parede a esquerda, e não a direita, ele teria encontrado uma porta fechada, mas não trancada. Com o simples virar de um trinco, ele teria encontrado a salvação. Mas como essa não é uma história de fadas ou com um final feliz (não para um advogado), Tomás seguiu em frente.

Houve um barulho mais próximo, nítido. Olhando para trás, ele não viu nada além da mais pura escuridão, mas era possível sentir um par de olhos o olhando. Aquilo estava ali, no mesmo nível com ele. Embora não fosse possível ver, ele podia sentir o cheiro de sangue podre que emanava da criatura, e isso o fez correr como nunca. A cada passo rápido que dava no corredor, Tomás sentia o coração apertar com as pontadas da dor, afinal nem toda adrenalina do mundo era capaz de fazê-lo esquecer que o pé estava já quase indo para o mais fundo e preto saco.

O instinto o fazia querer gritar, clamar por socorro, mas a parte racional por trás do seu cérebro de tribunal o fez ficar quieto. Se já era ruim fugir de um, imagina fugir de uma turba de detentos? Embora tivesse assistido a uma porção de filmes de zumbis durante sua vida, Tomás ainda não estava convencido se um morto-vivo conservava ou não sua memória, e tinha certeza que um preso com liberdade para fazer (e comer) o que bem entender adoraria foder com a vida de um advogado que só ia ali visitá-lo quando a procuradoria o exigia. Talvez aquela decisão de ficar quieto tenha sido responsável por garantir a sobrevivência do advogado.

O advogado não soube precisar ao certo, mas dez ou quinze metros depois, o defensor público fez a curva que ficava abaixo da luz de emergência. Ali divisou na penumbra que banhava aquela parede agraciada pela luminosidade uma placa que indicava as celas de confinamento, também conhecidas como solitárias. Ao fazer a curva, ele olhou para trás e conseguiu um vislumbre de seu perseguidor pela primeira vez. O zumbi que ia passo atrás de passo dele usava um uniforme de guarda manchado de sangue. Pelo rosto não era familiar, mas nem por isso ele deixaria de guardar aquele rosto enquanto vivesse, afinal não é todo dia que se é perseguido por uma pessoa sem um dos braços e com metade do pescoço cravado de dentes.

Embora Tomás tivesse crescido assistindo aos Contos da Cripta e aos filmes do Zé do Caixão, ver de perto o que restou de uma pessoa, coberto de sangue, entranhas e com cheiro de podre podem realmente mexer com alguém. Tal qual um animal que fica hipnotizado pelo farol de um carro no meio de uma rodovia, Tomás não conseguia se mover, pois seu cérebro ainda não tinha aceitado o choque da contradição de um morto estar vivo, andando e, pior ainda, indo em direção a ele com um propósito que não parecia uma visita de domingo.

Corra. Corra daí. Uma perna, depois a outra, não é tão difícil. Uma voz no fundo de sua cabeça tentava fazer com que ele se movesse dali. Sim, ele está morto, andando, mas e daí? Não acontecia isso em todos os filmes que você assistiu, Tomás? Então, qual o problema? Você vai ficar parado questionando ou vai correr?

Embora não tivesse parado de questionar, aquela voz no fundo da sua cabeça começou a falar cada vez mais alto. Não sabia exatamente o que era aquela voz, mas a chamou naquele momento de Tomás Sobrevivente e agradeceu por tê-lo conhecido. Sim, aquilo estava morto, mas o que morre uma vez, morre duas, o problema seria quando a pessoa nunca pudesse morrer.

Andando rápido pelo novo corredor Tomás fez um inventário mental do homem que o perseguia: alto, ligeiramente fora de forma, sem um dos braços e com um grave ferimento no pescoço. Talvez fosse possível enfrentá-lo em um combate corpo a corpo, se conseguisse ficar em uma posição estratégica. Infelizmente aquele ali não era um guarda da muralha, o que significava que ele não carregava nenhum armamento de fogo que pudesse ser usado depois. Como butim do combate que ele pretendia travar em alguns momentos, Tomás levaria para casa somente um cassetete, o que naquela circunstância era melhor do que nada.

Arfando e suando muito além do saudável, Tomás começou a sentir os efeitos do esforço físico. A lateral do tórax doía, a perna direita estava dormente e cada respiração era um novo esforço, como se estivesse tentando respirar através de um travesseiro que usavam para sufocá-lo durante o sono. Sem perceber, ele se enfiava cada vez mais em um corredor que o envolvia mais na penumbra, pois ali não havia nenhuma luz, nenhum equipamento de emergência.

Já praticamente envolto nas trevas, com o abdômen contraindo pelo esforço, Tomás vomitou com os lábios fechados. Respirando pelo nariz e engolindo cada pedaço e substância que seu corpo tentara colocar para fora, ele se forçou a ir em frente. Como Deus ajudava os justos, Tomás quase perdeu o equilíbrio ao sentir uma cãibra atacando sua perna esquerda, a perna boa. No limiar da luz, ele viu uma entrada a esquerda, um novo corredor. Talvez se saísse da vista do perseguidor ele tivesse uma chance.

Arriscando em 50% que teria sucesso, o advogado fez a curva e imediatamente foi agarrado por mãos pútridas que se envolveram em sua camisa social de algodão branco. O susto e o choque o fizeram ir ao chão, carregando junto seu atacante. – Socorro! Pelo amor de Deus! Me larga, filho da puta!… Soco… Ai! Ai! Caralho! – E enquanto rastejava pelo chão dos corredores da solitária, ele sentiu a primeira dentada levar um pedaço da sua coxa. – Ai! Ai! Ajuda!!!!! – E outra dentada, agora na lateral das costelas.

Tomás tentou se virar para se livrar daquele filho da puta que tentava matá-lo, quando uma mão com unhas pretas penetrou a mordida e agarrou as tripas dele, puxando-as. Gemendo e balbuciando apenas sangue, Tomás apenas largou o corpo no chão, respirando direto da poça que se formava embaixo da sua boca e nariz. Ele tinha chegado tão longe, tinha acabado de arrumar um bom cliente, ia dar entrada em uma casa no Tremembé. Tinha…

Tinha acabado de morrer, exatamente na cela da frente de Carlos, que ouviu aquele espetáculo todo afundando-se na parede da cela, sem soltar um único pio. O que quer que tivesse espancado aquele outro prisioneiro não iria pegá-lo, não se não lembrasse que ele também estava por ali.


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