sábado, 22 de julho de 2017

Mais de trinta

Desterrados: Uma história de zumbis em São Paulo – Capítulo 2

Capítulo 02

A progressão, aparentemente a esmo, dos zumbis paulistas era ordenada pelo único estímulo racional de um morto-vivo peregrino: o canibalismo. A carne, especialmente a humana, é como um diesel no motor daqueles seres putrefatos, sendo parte deles caindo aos pedaços mais do que um desafortunado leproso. O cérebro, uma iguaria dos deuses – ou dos demônios – confere ainda mais energia aos moribundos itinerantes. O que chega a ser muito justo dado o esforço para um ser não muito racional abrir um crânio usando nada além das mãos e dentadas, que muitas vezes terminava por deixar dentes quebrados fincados numa cabeça, já fora da forte mandíbula zumbi. Como os mortos-vivos não eram desprovidos dos mais básicos instintos primitivos, na maioria das vezes as cabeças acabavam abertas após sucessivas pancadas contra o asfalto.

Ele não sabia quem ele era ou o que estava sabendo. Apenas um relance da sua verdadeira identidade passava pela sua consciência primitiva. Ele sabia que precisava continuar andando. O sol batendo diretamente contra seus olhos não significava muita coisa. Incomodava um pouco, mas ele achava que embora não o prejudicasse, era melhor manter os olhos para frente. Aquela bola amarela não poderia machucá-lo, mas também não iria fazer muita coisa para preencher aquele vazio dentro da sua boca e de suas entranhas. Ele precisava de carne.

Ao passar pela Marginal Tietê, próximo da rodoviária, ele… qual era mesmo aquela palavra que pertencia a ele? Era alguma coisa… Era só dele, mas alguns outros também a tinham para si… não importava, não naquele momento. Aquela rua lhe era familiar. Ele não olhou para os lados, mas não precisava fazê-lo para saber que não estava sozinho. O arrastar de pés e gemidos secos fazia parte daquele cenário. Embora não conhecesse ninguém, nem ele mesmo, ele sabia que precisava ficar junto daquelas outras…. Outras.

Olhando fixo para frente, ele ganhava os metros pela Marginal infestada por carros abandonados. Via aquelas outras… Aqueles como ele, assim melhor dizendo, se juntando à procissão. Uma boa distância a frente, que ele sabia que tinha um nome, mas ele não sabia o que era e nem tinha certeza se um nome era mesmo uma palavra certa para um nome, outro grupo de Aqueles como ele se aproximava. Como animais, estavam cercando uma presa.

Passo atrás de passo, ele e outros 20 Aqueles como ele bateram suas mãos contra a lateral de uma grande caixa, que ele não sabia se chamar ônibus escolar. Lá dentro, ele sentia o gosto de muita comida. Não conseguia ver as crianças e muito menos ouvir, mas sua boa estava começando a soltar aquela gosma que parecia saliva e seu estômago começou a queimar, lembrando-o da fome. Um soco. Um tapa. Um pouco de cada vez, contra a superfície metálica daquela grande caixa. Ele tinha tempo e a cada batida, o gosto em sua boa ficava cada vez mais forte – e saboroso.

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