sexta, 26 de maio de 2017

Mais de trinta

Desterrados: Uma história de Zumbis em São Paulo – Capítulo 3

Capítulo 3

Carlos não sabia precisar exatamente quanto tempo se passou desde o alvoroço do lado de fora da sua cela até o momento em que ele finalmente decidiu agir. Durante todos aqueles dias ali dentro ele teve a presença de espírito de encostar-se na parede para sentir o calor do sol, e assim calcular o passar dos dias enclausurado. Agora, com o cu na mão e morrendo de medo, ele permaneceu indefinidamente deitado na cama, respirando silenciosamente. O inventor da solitária era mesmo um gênio do mal, pois aquilo quebrava qualquer um dos homens, invariavelmente.

Sem nenhuma perspectiva de liberdade, Carlos apenas deixou-se deitar no catre. Imóvel, inerte, ele não fazia outra coisa senão respirar e tentar esvaziar a cabeça para conseguir dormir. Seu plano era ficar imerso nas sombras. O que não era visto, pensava ele, não era lembrado.

Seu hiato existencial durou mais dois dias, embora ele não soubesse disso. Mijado, cagado e morrendo de fome, ele finalmente desistiu e levantou-se, para cair de fraqueza assim que ficou de pé, afinal os homens pudessem ter se esquecido dele, mas a sempre impiedosa lei da gravidade lembrou-se dele imediatamente.

Macaco velho de cela e de solitária, Carlos sempre desconfiou do amanhã. A lição, aprendida com um ex-chefe do tráfico do extremo da Zona Sul, dizia para poupar a ração recebida: metade para a barriga, 10% para o Santo e o resto debaixo da cama, no mocó. Na primeira passagem pela solitária, assumindo a bronca do traficante, Carlos não ouviu o conselho e passou fome nos tradicionais dias de “esquecimento” da merenda, usado como punição. Da segunda em diante, poupou como a cigarra do conto que sua vó costumada contar.

Esticando a mão, ele pegou o primeiro pão duro e já manchado de bolor. Levando-o até a boca, respirando baixo nas migalhas secas que cobriam o chão, o prisioneiro reavaliou suas opções. Poderia voltar a esmurrar a parede ou simplesmente comer um pouco por dia e esperar para ver se alguém ia buscar por ele. Ninguém ia preso sem fazer inimigos, mas para tê-los, era preciso ter também amigos, e era nisso que ele se apoiou naqueles dois dias. Se deu algum tipo de merda na cidade, alguém iria buscar por ele.

Como fora ingênuo aquele que até então se achava um leão do crime. As 48 horas de fome e esquecimento foram suficientes para escurecer isso de sua cabeça. Quem não era visto não era lembrado, lembra Carlos? Os inimigos não se lembram de você, mas os amigos também não.

Entre a dúvida de comer pouco ou nada, o estômago falou mais alto e antes que pudesse evitar quase todo suprimento já fora mandado para dentro. Após comer, Carlos ficou em silêncio. Dois dias sem falar haviam transformado aquela cela em um martelo de tímpano: tudo fazia mais barulho, tudo ressoava.

Foi também em silêncio de palavras, mas não de sons, que o prisioneiro colocou toda comida para fora. Com o estômago sensível por mais de uma semana de fome, foi idiotice ingerir aquela quantidade de comida de uma única vez. Estragada. Mas aquilo não era um problema para a bandidagem. Vergando-se sobre os restos, Carlos comeu-os novamente, só que desta vez temperado com sua bílis.

E houve então naquele momento um estalido. Sem força de reabastecimento há dias, finalmente os geradores elétricos da prisão, responsáveis pelos sistemas de emergência como as luzes de sinalização vistas por Tomás e as trancas das celas, acusaram o golpe e desligaram. Assim, sem mais nem menos, a porta da cela que o prendia abriu-se provavelmente um ou dois milímetros. Àquela altura, aquela distância era equivalente a quilômetros da mais pura liberdade.

Ainda sentindo câimbras e azia pelo vômito, Carlos se pôs de pé aos poucos. Por mais que a porta mal tenha se movido, naquele silêncio o barulho foi quase como o bater de uma porta. Estava cansado e sem forças, mas a emoção de não ter mais que contemplar a morte certa deram ao enclausurado o ânimo necessário para encarar o mundo de cima.

Esquecendo-se completamente do ocorrido no corredor, Carlos meteu a mão na fresta da porta e escancarou-a, trazendo junto uma lufada de vento pútrido para dentro de sua tela. Naquele momento ele lembrou-se e olhou para baixo por puro reflexo. Doce blecaute, que o impediu de ver o rastro de tripas e sangue deixados por Tomás.

Sem luz, sem gerador, era simplesmente impossível enxergar coisa alguma ali dentro. Com medo, mas ainda homem formado na periferia de São Paulo, Carlos não podia temer. Como dizia a música dos Racionais Mc’s, ele preferia viver pouco como um rei do que muito como um zé. Reunindo toda a coragem que tinha dentro de si, ele arrastou o pé com chinelo de dedo pelo chão do corredor. Dando pequenos passos para os lados, apoiando-se na parede, ele procurou em vão. Não havia nada, nenhum sinal daquele que deveria estar em rigor mortis por ali. Se o sujeito morreu, e ele tinha morrido, alguém deveria ter passado por ali para recolher o corpo e aquilo ele certamente teria ouvido. Não, aquilo não estava certo.

Com a sorte que eventualmente acompanham decisões tomadas ao acaso – e também com a certeza de que estava realmente abandonado à própria sorte – Carlos ignorou o fato que uma pessoa morta e não recolhida não estar aos pés da sua cela.

Cada um com seus problemas e ele já estava com os bolsos cheios com os dele. Carlos então fechou os olhos e tentou lembrar o caminho até ali. Fazia pouco tempo e ele já havia percorrido aqueles corredores tantas vezes, mas a fome e o cansaço eram tão grandes que até pensar doía. Era pela esquerda, tinha certeza.

Após dar o primeiro passo, sempre apoiado a uma das paredes, Carlos respirou fundo para obter forças. Com aquele cheiro de defunto, só o que conseguiu foi agitar ainda mais a comida dentro de si. Lutando para não vomitar novamente, ele aumentou o passo, fazendo sempre o menor barulho possível. Se ele não via nada e nem ninguém, era de se assumir que ninguém o visse também. Ouvir agora era o segredo. Fugitivo da polícia em diversas ocasiões e caçador de devedores em tantas outras, ele lembrava sempre do truque de parar e ouvir. Fez isso naquele momento e nada constou em seus tímpanos. A barra parecia estar limpa.

A caminhada naquele corredor escuro era uma tortura sem tamanho. Cada passo imprimia em sua mente imagens de todos os filmes de terror que havia assistido na infância e durante boa parte de sua vida adulta, que não era lá muito longa.

Havia companhia há alguns corredores ao lado daquele onde Carlos titubeava. Aquilo que um dia fora uma enfermeira dedicada agora se deleitava com o couro rançoso e esquálido de um rato fugido do esgoto. O escuro agora era morada perpétua daqueles que foram aprisionados no inferno chamado Centro de Detenção Provisória de Pinheiros. Presa em olhos enevoados há dias, a moribunda ergueu o rosto em um movimento lento, desmotivado. Ela não respirava, não podia respirar, era uma defunta motora, mas cacete, como ela sabia que ali perto caminhava uma presa mais apetitosa, ela sabia.

Esgueirando-se por cada ambiente, Carlos havia conseguido sair da zona de solitária. Ele estava em um ambiente de transição, um conjunto de salas e corredores aonde ficavam escritórios e outras salas destinadas à administração da prisão. A luz, extremamente parca, vinha de janelas sólidas de vidro reforçado, mas que deixavam ver uma lua a pino, brilhando em viaturas empoeiradas no meio do pátio. Talvez ele pudesse chegar a um daqueles carros e dar a partida. A bateria poderia estar arriada, é claro, mas se um deles tivesse passado pela revisão e não estivesse tão fodido quanto os equipamentos públicos costumam estar, talvez ele tivesse uma chance.

Ele nunca havia estado ali, mas a lógica dizia que em qualquer entrada há uma saída, e uma porta para o círculo interno do pavilhão era certo. Atacando a penumbra, Carlos começou a percorrer metro após metro daquele longo corredor cinzento. O prisioneiro sabia que o punho de um homem era uma arma, mas sempre ouviu dos malandros mais velhos que quem tinha dois tinha um, e quem tinha um não tinha nada. Sendo assim, ele precisava de uma arma. A cada sala visitada naquela jornada de busca, a cada metro desbravado, ele abria gavetas silenciosamente, banhado pelo mais absoluto medo do que poderia acabar encontrando ele. Ele queria uma arma, uma faca, um sanduíche. Além de alguns papéis, cadeiras e outras coisas inúteis como caixas de papelão repletas de coisas que ele não tinha tempo de desvendar, não encontrou nada de útil que pudesse servir.

Mas havia algo a ser encontrado. Tiritando na morte, um policial derrotado pela morte perambulava pelo restolho da respiração do sobrevivente. Arrastando os pés, ele sentiu no fundo de sua mente podre a presença da presa. – Hmammmammmaaa….. – E naquele instante Carlos sentiu a respiração da morte na nuca. Olhando em volta, em frangalhos e sem energia, ele ajoelhou-se, segurando a respiração.

Aproximando-se, o morto-vivo entrou na sala em que ele estava. Imediatamente Carlos sentiu o cheiro de podridão no ar. Ele precisava sair dali. Ao mesmo tempo em que seus músculos congelaram de medo, cada célula de seu corpo berrava e fervilhava na mais básica e pura sobrevivência. Relutante e perdido como um vira-lata sem rumo, Carlos levantou-se. Ele tinha duas alternativas: ficar e tentar derrubar aquela coisa, liquidando-a, ou fugir como um covarde, uma merda de uma galinha.

Os covardes é que contavam a história, era assim que havia visto em um filme. De pé novamente, Carlos correu em direção ao corredor, abrindo a porta que os separava de imediato. Do outro lado, vislumbrou uma dama de branco. Seria uma visão maravilhosa, não fosse o buraco na barriga e as tripas enroladas nas pernas. Não, por ali não, pelo outro lado, seu instinto disse. Carlos virou e olhou para trás. Lá, apenas uma porta bloqueada por cadeiras e caixas.

– É, que se foda essa merda, vai ter que ser por aqui mesmo. E ele correu na direção da enfermeira, escapando por centímetros de juntas e dedos podres do policial que se esgueiraram pelo vão da porta aberta por ele. Correndo na direção da enfermeira, Carlos mergulhou no chão, entre a perna da sua predadora e a parede. A descarga de adrenalina foi suficiente para lhe dar energia para levantar após o mergulho e se afastar em direção a uma porta que ele agora via. Aturdida pelo pulo e afetada pela letargia que acompanha a volta ao mundo dos vivos, a enfermeira só naquele momento conseguiu se virar e vir sua comida escapar facilmente pelos dedos em direção ao pátio do presídio. Tudo bem. Ela ouviu o barulho de mais uma porta abrindo naquele lugar onde tudo era escuro e onde ela estava antes.

Fechando a porta atrás de si, Carlos viu-se banhado pela lua cheia no pátio do presídio. Olhando rapidamente para os lados para garantir a própria existência, o presidiário não viu nada além dos carros abandonados e alguns corpos sem vida no chão. Com todos os músculos retesados contra a porta atrás de si, Carlos fez uma leitura mais detalhada do que se encontrava próximo a ele, afinal uma daquelas coisas poderia surgir e ele teria que agir rápido. O furgão de entrega visto por Tomás estava largado dez metros a frente dele, sujo de sangue e com as portas abertas. Alguns metros a direita do furgão, uma viatura policial encontrava-se com as portas fechadas, mas com um vidro quebrado. Cacos e peças de roupa, além de um corpo esmagado por uma outra viatura contra uma das paredes do prédio, à sua esquerda. O corpo não se mexia e a viatura parecia sem condições de vida.

Calculando duas hipóteses possíveis, Carlos se pôs a pensar, sentindo um tremor atrás de si. Uma daquelas coisas tentara abrir a porta batendo com as duas mãos contra a superfície de ferro. Olhando para a torre, Carlos ponderou a dificuldade de subir ali. Sabia que o acesso às muralhas se dava pelo interior do prédio administrativo do outro lado do pátio. Chegando lá, era terreno desconhecido até a torre, que deveria abrigar um holofote já sem energia, além de uma bela vista da cidade. Se o guarda tivesse sido descuidado, encontraria também um rádio de curto alcance e nada além disso, afinal o antigo morador daquele recinto deveria ter ido embora carregando o rifle. Na torre poderia chamar por ajuda aos berros, mas estaria refém da própria sorte, afinal seus gritos poderiam atrair também mais daquelas coisas.

Se ele fosse até a viatura do vidro quebrado, que parecia agora um pouco menos limpa, mas ainda assim fechada, a situação poderia ser um pouco melhor. Ele poderia fazer uma ligação direta e sair com o carro dali. Mas para onde? Bom, qualquer lugar longe daquela cadeia infestada. Carlos então virou e conferiu se a porta estava fechada – sim, estava – e então começou a caminhar lentamente em direção a viatura. Com seus passos, nenhum daqueles malditos bichos fez nenhum barulho e os mortos continuavam mortos.

O prisioneiro então parou ao lado do carro e fez uma rápida busca pela janela, afastado do alcance de um braço das janelas. O interior estava vazio, embora o banco do passageiro estivesse coberto por cacos do vidro quebrado. Dando a volta para conferir o estado dos pneus, Carlos ficou satisfeito ao abrir a porta do motorista e sentar atrás do volante da Chevrolet Blazer da Polícia Militar de São Paulo. Fechando a porta com dedicado silêncio, Carlos inventariou então o porta-luvas e…

Pegou uma caixa de óculos de sol que caiu no chão. Não era aquilo que procurava. Olhando para o banco de trás, tornou-se o feliz ganhador de uma pistola calibre .40 caída atrás do banco do passageiro. O policial portador da mesma com certeza estaria se xingando por não ter usado o fiel na arma.

– Ah, esse aqui com certeza está morto… –  permitiu-se murmurar, pegando a arma e verificando a contento que o pente estava cheio. Armado, poderia fazer uma varredura minuciosa da viatura mais tarde. Olhando para o rádio de comunicação do veículo, estendeu a mão para o interruptor. – Não, ainda não, muito barulho.

Segundo o relógio no painel do carro, passa um pouco das dez da noite quando o prisioneiro soltou o freio de mão do carro e começou a empurrá-lo pelo pátio. Embora soubesse ligar um automóvel sem chave desde os doze anos, ele não queria que o barulho de um motor avisasse que uma carona estava disponível. Se mais alguém estivesse vivo ali dentro seria um policial, que não deixaria ele ficar com a arma e muito menos com uma viatura, ou outro companheiro de prisão, que não são confiáveis nem aprisionados, imagina correndo pela vida.

Empurrando o carro pelos metros necessários até o portão, Carlos ouviu um grito vindo do prédio que dava acesso à muralha. Ainda bem que ele tinha preferido o carro, pensou enquanto sorria de leve e apertava o passo, fazendo com que as rodas da viatura passassem pelas mãos do que fora antes o corpo de uma mulher em roupas civis. – Sinto muito, doutora… – E então parou de empurrar o carro quando chegou ao portão, fechado.

Como ele nunca havia saído dali andando, não sabia se a tranca do portão era elétrica ou a chave. O prisioneiro empurrou e puxou o portão, que não se mexeu. – Mas que merda! Cacete… – Xingou para si mesmo, enquanto voltou para dentro do carro. O prisioneiro fechou a porta e olhou em volta, certificando-se que estava ainda sozinho ali. Estava. Com essa tranquilidade em mente, enfiou as mãos e a atenção para baixo do volante. Abrir aquela tampa e juntar alguns fios, pronto. O problema é que não estava tão fácil abrir aquilo com as mãos. Precisava de uma chave de fenda ou de algo mais forte, que faria barulho. Como ele duvidava que policiais tivessem que consertar suas próprias viaturas, ou se soubessem fazê-lo, o que era mais improvável ainda, não deveria haver uma chave de fenda ali. Sendo assim, um bom chute era necessário. Segurando-se no banco do passageiro, Carlos ergueu-se um pouco no banco e deu um pontapé firme. Não foi suficiente. Nem o segundo, nem o terceiro, mas o quarto fez o serviço, além de muito barulho.

Quando começou a mexer na fiação, Carlos ouviu aquele gemido maldito que o havia feito quase mijar nas calças tempos atrás. Alguma daquelas coisas deveria ter saído no pátio. Ele tinha pouco tempo e precisava usá-lo adequadamente. Concentrando-se, tentou visualizar os fios que precisava manipular. Ali, ali estavam os meninos. Fácil. Dali ao carro funcionar não passaram mais de cinco segundos. Consultando rapidamente o painel, Carlos viu que tinha mais de meio tanque. Ele engatou então a ré do carro e afastou-se dez metros do portão de ferro. Olhando para a direita, o motorista viu que um policial se aproximava sem queixo e com um cinturão com alguns pentes.

– Nem fodendo! – E engatou então a primeira marcha, ganhando velocidade contra o portão. Somente naquele momento Carlos pensou que talvez o ferro poderia ser aço, e esse de excelente qualidade. Se isso acontecesse, ele acabaria fodendo o motor e dependendo do impacto poderia acabar preso dentro do carro. Rapidamente colocou o cinto de segurança e repetiu seu mantra… – Fodido por um… E chocando-se contra o portão, sentiu um leve impacto enquanto ganhava a liberdade do acesso à Marginal Pinheiros.

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