Indicações do Uso de Canabidiol para Manejo de Dor Perioperatória
O uso crescente de cannabis, tanto para fins recreativos quanto medicinais, levou a American Society of Regional Anesthesia and Pain Medicine (ASRA) a estabelecer diretrizes sobre o manejo perioperatório de pacientes que utilizam cannabis e canabinoides. Essa iniciativa é motivada por diversas razões críticas.
A cannabis é a substância psicotrópica mais amplamente utilizada nos Estados Unidos, logo após o álcool. Um estudo realizado em 2017 pela US Substance Abuse and Mental Health Services Administration (SAMHSA) revelou que aproximadamente 10% da população americana relatou o uso mensal dessa substância. A legalização e a descriminalização da cannabis na última década ampliaram o interesse e a literatura sobre o tema, resultando em um uso comercial mais amplo.
Com a crescente prevalência do uso de cannabis para fins médicos e recreativos, é essencial que anestesiologistas, cirurgiões e médicos envolvidos no cuidado perioperatório compreendam os efeitos da cannabis na fisiologia humana. Esses efeitos podem impactar vários aspectos do manejo perioperatório, incluindo a monitorização dos pacientes, a qualidade da analgesia, o consumo de opioides e a recuperação pós-operatória.
A cannabis pode oferecer potenciais benefícios terapêuticos, como o controle da dor crônica e neuropática, além da redução de náuseas induzidas por quimioterapia. Contudo, existem também efeitos colaterais associados, como psicose, síndrome de hiperêmese por cannabis, transtorno por uso de cannabis e síndrome de abstinência da substância. A diversidade dos produtos de cannabis e a falta de literatura específica sobre o contexto perioperatório demandam diretrizes baseadas em evidências para o manejo de pacientes que consomem cannabis.
As diretrizes da ASRA foram formuladas para fornecer recomendações clínicas específicas para o manejo perioperatório de cannabis e canabinoides. Elas abordam questões como triagem perioperatória, adiamento de cirurgias eletivas, o uso concomitante de opioides e cannabis, e o monitoramento pós-operatório.
Triagem e Gerenciamento Pré-operatório
A triagem de todos os pacientes cirúrgicos quanto ao uso de cannabis é uma recomendação fundamental para identificar riscos potenciais e personalizar o cuidado perioperatório. Essa triagem deve incluir uma avaliação detalhada da frequência, quantidade e forma de uso de cannabis, além da verificação da presença de intoxicação aguda, que pode justificar o adiamento de cirurgias eletivas devido ao aumento do risco de complicações.
Ajustes Anestésicos e Analgésicos
Pacientes que utilizam cannabis podem requerer ajustes nos planos anestésicos e analgésicos. A interação entre canabinoides e agentes anestésicos pode resultar em instabilidade hemodinâmica e alterações no metabolismo dos medicamentos. A ASRA ressalta que o uso concomitante de opioides e cannabis aumenta o risco de efeitos adversos, o que exige um monitoramento cuidadoso e, possivelmente, ajustes nas doses dos medicamentos. Além disso, a tolerância aumentada aos anestésicos pode demandar doses mais elevadas para que se alcance o efeito desejado.
Monitoramento Pós-operatório
Um monitoramento pós-operatório mais rigoroso é recomendado para usuários de cannabis devido ao maior risco de complicações, como depressão respiratória e instabilidade cardiovascular. A ASRA enfatiza a necessidade de desenvolver estratégias personalizadas para o manejo da dor no pós-operatório, visando garantir uma recuperação segura e minimizar complicações. Isso inclui a vigilância para eventos adversos e a adaptação do manejo da dor conforme necessário.
Considerações Especiais para Pacientes Grávidas
As diretrizes também contemplam as necessidades específicas de pacientes grávidas que usam cannabis, considerando os riscos potenciais para a mãe e o feto. É crucial identificar e gerenciar o transtorno por uso de cannabis, pois este pode impactar os resultados perioperatórios. Para isso, as diretrizes sugerem uma abordagem multidisciplinar que envolva diferentes especialistas na saúde.
Essas diretrizes visam não apenas melhorar a qualidade do cuidado clínico, mas também orientar futuras pesquisas sobre o impacto da cannabis na anestesia e no manejo da dor, além de fornecer diretrizes a agências reguladoras.
Referências Bibliográficas
1. Shah S, Schwenk ES, Sondekoppam RV, Clarke H, Zakowski M, Rzasa-Lynn RS, Yeung B, Nicholson K, Schwartz G, Hooten WM, Wallace M. ASRA Pain Medicine consensus guidelines on the management of the perioperative patient on cannabis and cannabinoids. Regional Anesthesia & Pain Medicine. 2023 Mar 1;48(3):97-117.
Observação Importante: As informações aqui apresentadas não substituem a avaliação ou o acompanhamento profissional. Sempre consulte um médico ou especialista em saúde para orientações personalizadas.
