sexta, 17 de novembro de 2017

Mais de trinta

A volta por cima

Quem não sofreu por um amor não viveu ainda. Essa é uma daquelas generalizações que tem tudo para serem estúpidas, mas que é verdade, só quem já sentiu a dor de um desamor e da perda sabe como é.

No princípio, a separação costuma dar até mesmo falta de ar e isso não é exagero. Creio que é nesse momento, com pouca oxigenação no cérebro, que fazemos as cagadas homéricas. Imploramos pelo amor que foi, escutamos músicas bregas, queremos provocar ciúmes ou qualquer coisa para chamar a atenção de quem foi.

É muito natural que você precise de um tempo para realinhar as coisas na sua cabeça. O amor é como uma droga, mexe com a produção de enzimas e hormônios, alterando a percepção do apaixonado acerca do resto do mundo. Quando se ama, tudo parece lindo e bacana.

Durante o processo de separação esse mundo “perfeito” quebra. Dependendo do caso a pessoa fica deprimida ou eufórica, mas o apaixonado nunca fica indiferente, se ficou é porque a paixão já tinha evaporado antes do término.

Se tem dúvidas sobre a seriedade de um coração partido, basta ouvir um pouco de música. Não sei se há alguma competição para música de gente abandonada, mas se tiver, o Brasil é campeão sem precisar de disputa. Sertanejo, samba, MPB, rock ou forró, não importa o gênero, temos um vasto repertório musical que fala da pessoa que foi e não voltou.

A questão é: se todos sofremos por amor, e este sofrimento, em algum momento, é inevitável, como dar a volta por cima?

 

A primeira e mais besta ideia que vem a mente é a manjada tática de ocupar o espaço que foi deixado vago, “para curar um velho amor, só um novo”.

Pode até ser que dê certo por um tempo, mas as chances de funcionar não são das melhores. Provavelmente você só vai se enfiar em uma relação tampão e acabará, mais cedo ou mais tarde, magoando outra pessoa que nada tinha a ver com o teu problema.

Sair com outras pessoas pode ser um ótimo passatempo, mas se você não tiver cuidado, acabará projetando expectativas de uma relação anterior e a nova sairá no prejuízo. Ao invés de seguir em frente ficará remoendo o passado.

Analise a situação com carinho. Você estava em um relacionamento cuja paixão estava presente. Seus parâmetros de avaliação estão prejudicados. Em uma eventual nova relação a paixão está começando a brotar, não há ativos no banco do amor que foi recém inaugurado e tudo parecerá pior.

O caminho é através do desapego. Eu sei. É foda. Mas, se fosse fácil eu não estaria escrevendo este artigo. Estou tentando te ajudar.

Desapegar exige muito treinamento e disciplina. Você precisa aceitar que a relação teve início, meio e fim. Pode não ter sido o final que você gostaria, mas é melhor um fim horroroso do que um horror sem fim.

Parar de se lamentar é um bom caminho. Aposto que, se você pudesse voltar no tempo, faria uma porção de coisas de outra forma. Teria dado mais valor, menos importância para problemas, teria amado mais e brigado menos, distribuiria paciência e compreensão como a polícia distribui porrada na vagabundagem, ou seja, na sua cabeça, voltar no tempo te transformaria no Dalai Lama.

A verdade é que o seu “eu” hipotético, fruto da sua imaginação, seria bem melhor do que qualquer ser humano que já pisou na terra. Isso só pode dizer uma coisa: não aconteceria.

O que quero dizer com tudo isso? Que nem se você conseguisse fazer o planeta girar ao contrário — coisa já tentada pelo Superman do passado (o que depois ficou na cadeira de rodas) — não daria certo e a relação acabaria.

Tentar colar as peças de uma relação que se quebrou raramente funciona. Mais fácil deixar o tempo passar e começar outra relação com a mesma pessoa. Contudo, a experiência mostra que raramente isso funciona.

Sabendo de tudo isso, só há uma coisa a fazer: enterrar o defunto! Calma, o defunto merece todas as reverências e honrarias de chefe de estado. Merece ser lembrado com respeito, mas sem exageros.

Com certeza a relação deve ter lhe ensinado algo. Nem que seja a tomar mais cuidados nas próximas ocasiões, ou ainda, ter menos reservas do que na anterior.

Quanto mais você aceitar que o que passou fez parte do seu aprendizado, melhor será. Duvido muito que nos esbarramos com os outros por acaso, me parece mais que há algo que nos atrai ou nos repele. Se acabou é porque tinha que acabar.

Geralmente há sempre uma parte que se sente no prejuízo e isso é normal. Com o tempo e, em alguns casos, anos de terapia, isso se resolve.

Caso você esteja frequentemente tendo insucessos no amor, sugiro que repense o que anda fazendo para ter o famoso “dedo podre”. Não tenho um estudo aprofundado e documentado, mas pelo pouco que entendi dos relacionamentos, costumamos atrair pessoas que um maturidade emocional semelhantes a nossa.

Vou traduzir para que não sobre dúvidas: se você está em uma situação em que a outra parte parece imatura, é um bom momento para ver a sua imaturidade. Se não estamos prontos para viver uma relação acima da média, de alguma forma, somos atraídos por outras pessoas com o mesmo problema.

É preciso entender isso antes de partir para outra, caso contrário será um tragédia anunciada. Pense no que você quer para a sua vida, mantenha o foco nisso, e a volta por cima acontecerá quando você menos esperar.

Plagiando Rolling Stones, “nem sempre você pode ter o que quer, mas, se você tentar de verdade, pode ter o que precisa”.

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