Wednesday, 16 de October de 2019

Mais de trinta

Livro Cem Anos de Solidão: real e fantástico

Cem Anos de Solidão

Capa do livro Cem Anos de Solidão

Gabriel Garcia Márquez deixou a vida no dia 17/04/2014, mas para a história já havia entrado há muito tempo. Mais do que suas obras, deixou um estilo que mesclava realidade e fantasia onde pessoas podem voar, que comem terra e cal das paredes, lugares onde caem chuva de flores amarelas ou personagens que ascendem aos céus.

Tendo como pano de fundo a América Latina e inspiração a cidade natal do autor, bem como sua infância na pequena cidade de Aracataca, Cem Anos de Solidão é mais que a obra mais famosa do autor, mais que uma história que usa de metáforas para fazer uma crítica à uma sociedade arcaica, às ditaduras ou um livro que tem como principal tema a solidão como condição humana desde sempre e para sempre.

Ele mostra a solidão humana como irremediável e inevitável, inerente ao ser humano pois nascemos sozinhos e morremos sozinhos. As pessoas vão e vem e somente nós ficamos. Mas mesmo tratando de forma tão forte sobre a solidão, mostra que a mesma não deve ser necessariamente triste.

Cem anos de solidão é um livro sobre a magia da realidade. O próprio autor costumava dizer que: “é só realismo. A realidade que é mágica. Não invento nada. Não há uma linha nos meus livros que não seja realidade. Não tenho imaginação”. Talvez seja esse o grande mérito do livro, fazer sonhar. Trazer o sonho para a realidade fundindo fantasia e realismo.

Me lembro que quando li o livro fiquei fascinada pela história e pelos personagens. Havia tanta poesia, tanto sentimento naquelas histórias que para mim era impossível alguém não gostar do livro. Mas arte é isso, é sentir, tocar. As obras tocam as pessoas de diferentes formas e é esse o grande barato. É como a vida, há quem veja poesia e cores nela e há quem não consiga ver.

Tudo depende de como se sente as coisas, de como as coisas nos tocam. Algumas pessoas olham para o céu e veem apenas se vai chover ou não; há os que olham e conseguem saber que horas são; há os que olham e enxergam as cores. Mas há aqueles que olham e enxergam poesia, enxergam formas, cores, imagens, criaturas formadas pelas nuvens.

Dias atrás vi o comentário de um colega que dizia que não conseguiu ler o livro, que pareciam as histórias contadas por seu avô. Para outros o livro é interessante justamente por lembrar essas histórias; para outros se tratará apenas de uma crítica à sociedade que se utiliza de metáforas e para outros é uma forma poética de narrar histórias, de falar sobre a vida.

Esse é o grande mérito do autor, usar o extraordinário para contar o cotidiano. Embelezar histórias e acontecimentos tristes com poesia. Assim como na vida, temos o poder de transformar fatos corriqueiros em coisas extraordinárias e verdadeiramente mágicas dependendo de como olhamos para elas, como as enxergamos.

Muitas vezes isso não depende apenas de nossa escolha, pois muitas vezes olhamos e não conseguimos ver, não conseguimos enxergar o lado bom, a poesia, o extraordinário. Algumas pessoas possuem essa capacidade naturalmente. Outras precisam treinar seu olhar, sua sensibilidade, sua percepção para conseguir ver o que muitas vezes parece invisível aos demais.

Como se não bastasse, possui um dos melhores finais que já li, encerrando a saga dos Buendía com a frase: “(…) Porém, antes de chegar ao verso final já havia compreendido que não sairia jamais daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilônia acabasse de decifrar os pergaminhos, e que tudo estava escrito neles era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra”.

Talvez o que haja de mais fantástico na obra do autor é os sentimentos que são capazes de despertar. Meu eterno agradecimento ao Gabriel Garcia Márquez por mostrar a sua fantástica realidade ao mundo, por ter contado a solidão, as dores e as alegrias dos Buendía e de todos nós de uma forma tão mágica e por isso, mais bonita.

Graças à sua obra milhares de pessoas no mundo todo puderam ver as pessoas e a vida com mais poesia depois de conhecer a saga e a solidão dos Buendía e a cidade de Macondo.

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