Tuesday, 25 de June de 2019

Mais de trinta

As máscaras que criamos, as que nos criam e as que criam para nós

Todo mundo tem um ou mais pontos de pressão que desejaria não ter, Aquiles tinha o calcanhar, a força de Sansão vinha de seu cabelo, já Narciso contava com sua beleza. Mas, não é preciso ser mitológico para também ter um, sendo ele uma virtude como generosidade ou um vício como vaidade.

Quando expomos nossas fragilidades ficamos a mercê de adversários. Sun Tzu, autor da “A arte da guerra”, já dizia que devemos parecer fracos quando estamos fortes e fortes quando estamos fracos.

Baseados em nossas experiências sociais tomamos a decisão, racional ou não, de criar máscaras com a finalidade de nos proteger do mal. Por exemplo, por trás de uma figura valente e agressiva, pode ter alguém que tem muito medo de ser machucado.

Fora os masoquistas, ninguém gosta de sofrer e é natural que se invista nas mais diversas formas de evitar passar por maus bocados.

O problema é que nos acostumamos a nos proteger ainda na adolescência e, mesmo crescendo, amadurecendo e criando musculatura, continuamos a usar armaduras que se tornaram obsoletas. Ficamos reativos à mudanças e passamos a ver qualquer coisa que nos tire da zona de conforto como uma ameaça.

Nesse caminho acabamos magoando pessoas que queriam ter contato com aquilo que realmente somos. Eu cometi esse erro por muitas vezes. Sem me dar conta, desnecessariamente, ataquei corporativamente colegas de trabalho para evitar que me atrapalhassem em passos futuros.

O conhecimento pode, mas não deve ser usado como forma de diminuir os outros e, em algumas vezes, usei do meu para isso. O jeito de falar algo, mesmo sem ser agressivo, pode produzir resultados horríveis.

Um “isso é muito óbvio para você não ter percebido isso antes” é praticamente a mesma coisa que “você é incompetente, desleixado ou burro”. Se for dito na frente do superior da pessoa então, é muito pior. Bastaria mudar isso para “acho que temos outras possibilidades em vista que podem ajudar mais nesse processo”.

Isso não serve só para o corporativo. Nos relacionamentos também é comum você mostrar logo o que tem de pior e até aumentar situações para ver se o outro lado corre. Isso é uma grande bobagem! Depois, terá que reconstruir uma ponte de confiança que acabou deteriorada pelo seu mecanismo de defesa. Sem contar que pode ter feito estragos que não serão recuperados.

Enfim, criar máscaras pode ter seus momentos de utilidade, mas cuidado para não usá-las por tempo demais, caso contrário, ao demorar você terá vivido uma realidade tão diferente que não saberá mais quem é, nem o que precisa para ser feliz. Se perder a luz da sua essência, acabará sempre em busca de algo que não existe, repetindo comportamentos e decepções.

Sugiro assistir um filme chamado “O feitiço do tempo”, uma comédia romântica bobinha, mas que tem um grande recado.

Ainda nesse tema há também outro grande problema: as máscaras que as pessoas criam para nós.

Percebi isso noutro dia quando quis fazer uma palestra sobre “big data”, em que mostraria como as informações estão espalhadas de maneira fragmentada. Fui conversar com o barbeiro que corta meu cabelo há vinte anos e também com o garçom de um restaurante que vou há muito tempo. Queria saber o que eles sabiam de mim.

Para minha surpresa, os dois tinham visões completamente diferentes na maior parte das coisas e se cruzavam em algumas características.

O barbeiro acha que sou rico e “bon vivant”, pois ele sempre tem que cortar meu cabelo correndo por causa dos compromissos e me escuta falando sobre viagens que faço a trabalho.

Vejo que há uma confusão entre o que faço para ganhar a vida e o que faço para me divertir. A parte do rico é porque nunca paguei exatamente o que ele cobra, sempre dei um pouco a mais. O carro importado também ajuda, porém se ele conversar com o gerente do banco perceberá que junto com o carro acompanha uma carretinha para carregar o carnê de pagamento e a imagem será desfeita.

O garçom sabe que eu não bebo e que gosto de comida gorda. Acha que sou um gênio literário (porque sento na última mesa do restaurante e escrevo textos enquanto ele serve mesas), que sou generoso (mesmo motivo do barbeiro) e que sou palmeirense (ninguém é perfeito).

O que isso tem a ver com o início do texto? Tudo!

Eu nunca quis passar a imagem de gênio literário, nem a de rico para nenhum dos dois, mas ambos formaram pontos de vista baseados no que consideraram como real.

Eu vivi muito isso enquanto escrevia o Pergunte ao Urso. Minha mãe achava que eu era um “puto”, muitas mulheres achavam que eu “passava o rodo”, outro tanto igual achava que eu não pegava ninguém e por isso escrevia (confesso que é uma hipótese que me divertiu muito), meus amigos tinham certeza de que meu currículo de aventuras sexuais dariam um livro do tamanho da Bíblia.

Enquanto todo mundo achava alguma coisa, eu tinha que lidar com meus problemas, medos e anseios. O problema ficava maior ainda quando eu estava namorando. Carreguei o peso de um passado que nunca tive por muito tempo. Aproveitei bastante? Sim! A mim não cabe o manto do santo. Contudo, nada perto do que foi criado para mim. Cometi erros e também acertei como qualquer pessoa. Nada além disso.

Durante muito tempo deixei que as pessoas fizessem o juízo que desejassem a meu respeito, até cheguei a alimentar isso em algumas ocasiões. Hoje vejo que o melhor a fazer é expor a verdade e acabar com a “magia”. Claro que é gostoso viver no mundo lúdico que criam para a gente, mas ele passa. E o que há fora dele pode ser muito mais interessante e compensador.

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