Saturday, 18 de January de 2020

Mais de trinta

Robocop – Infância roubada

Robocop antigo X Robocop 2014

Robocop antigo X Robocop 2014

Brincar na rua até tarde. Dormir sem tomar banho e com o pé sujo. Os doces e cereais tinham açúcar de verdade. Cerol não era crime, muito menos as bombinhas. Até as bonecas da Xuxa criavam vida e pegavam a gente no banheiro da escola se não ficássemos espertos. Foi uma aventura atrás da outra e sobrevivemos. Fomos heróis da nossa própria infância. Que emocionante.

Tenho dó dessa nova geração que não passou por isso e já desde novinhos tem que se preocupar com a imagem, com a quantidade de amigos em redes sociais ou então em ter que lavar a mão com Dettol depois de brincar com o cachorro para não ter uma infecção antibacteriana. Caramba, não tá fácil ser criança hoje em dia.

Mas estou fugindo do assunto. Vim falar do Robocop. Herói da nossa infância que ganha uma nova versão nas mãos do fabuloso José Padilha (chamo ele de Zé pois me sinto muito próximo) que já me conquistou com o documentário “Onibus 174” que deveria ser assistido por todos tanto pelo seu contexto social quanto pelo sua forma de contar a história, transformando bandido em herói e depois em bandido de novo para no fim mostrar quem é o verdadeiro mostro desse país.  Que filme!

Mas novamente estou fugindo do assunto. Talvez por que o Zé tenha me decepcionado um pouco.

O novo filme do Robocop é excepcional dentro da sua colocação política e de critica ao sistema americano de enxergar o mundo. Assim como, em sua parte técnica, que apresenta efeitos de primeiro escalão (com um orçamento girando em torno de 130 milhões de dólares não seria de se esperar menos) somada a direção impecável do Zé.

Robocop

Robocop

O problema está em sua história que tenta modernizar e trazer para nosso mundo real essa figura imponente e fantástica do meio homem meio máquina. O filme é ótimo, vale a pena por todos esses motivos e para ver um Samuel L. Jackson ensandecido como um jornalista que conhecemos muito bem da rede Record de televisão.

Mas o que me desagradou tanto no filme? Por que não sai da sala de cinema pulando de alegria e fingindo que minha mão é um revolver enquanto atiro em bandidos imaginários e fazendo barulho de tiro com a boca. Tá, por que sou um velho de trinta e três anos e iriam chamar a policia.

Mas o filme não me agradou realmente, por, sinceramente, querer se levar tão a sério. Cara, é o Robocop. O próprio nome dele já não é para se levar a sério: “Tira Robo”. Tem coisa mais anos 80 que isso?

É então que me volto ao filme dos anos 80:  por que ele vai ficar na lembrança durante tanto tempo e esse novo não? Pra mim, a resposta está embutida em um termo americano chamado “pleasure guilty” que é utilizado naqueles momentos que temos alegria com algo que não deveríamos. Sentia isso quando criança assistindo Robocop e ainda sinto assistindo hoje.

O Robocop dos anos 80 era ácido. Com ele, viajávamos em um mundo que era próximo do nosso, mas ao mesmo tempo caricato ao ponto de não nos importarmos com o que vemos lá e até nos fazendo rir com algo que naturalmente não acharíamos graça. Como, por exemplo, a morte do policial Alex Murphy, vulgo Robocop. É violenta em um ponto tão extremo que chega a ser cômica. Nos importamos, sim, com ele, mas não ao ponto de nos sentirmos incomodados. Já o novo Robocop morre de uma forma comum e na frente do próprio filho. Boring.

E além de chato, não é divertido. Não tem graça. Não tem “pleasure guilty”. Realmente me senti incomodado com esse novo filme. Talvez seja só eu, mas ao querer carregar um drama maior ao filme, o Zé, me levou ao antigo filme, a um ponto de alegria quando eu era criança e não tinha problemas em vez de imaginar como ficaria uma esposa e filho ao ver o marido/pai morto. O Robocop antigo nem tenta muito entrar nesse conceito de família, é chato. Mas o novo Robocop gira em torno desse drama familiar. Boring.

Repito: o filme não é ruim, e essa abordagem real da história é até interessante, mas perante ao filme dos anos 80 ele se apaga de uma forma tão grande, que não adianta nada criar um ED 209 enorme e aumentar o numero deles em cena.

No filme antigo, o ED 209 é um desses personagens que te faz rir de nervoso. Ele tem erro de sistema permitindo-o matar pessoas desarmadas, ou então demonstrar irritação. É hilário e assustador ao mesmo tempo e não tem como dar uma risada sarcástica quando ele tenta descer uma escada e não consegue, agindo como uma criança rica, mimada e com uma arma na mão! Ele é ácido até para os dias de hoje.

O novo, ou novos ED 209 não tem personalidade. A cena de ação em que eles aparecem é estupenda e tenho certeza que muitos nerds entraram em estado de inanição na sala de cinema. Mas é só isso: efeitos bem feitos e bem dirigidos pelo Zé. Falta acidez, falta risada de nervosismo, falta pezinho de metal balançando antes de eles morrerem. Assista ao filme antigo para entender.

E os comercias do filme antigo?

Pleasure guilty warning! Pleasure guilty warning!

O filme fazia critica ao consumismo Americano através desses anúncios, como do jogo “war”, mas transformado em algo como “nuclear war”, mas meu preferiso é do sistema de segurança MagnaVolt que protege seu carro torrando o bandido no banco do motorista, sem precisar acionar o seguro, a polícia e, principalmente, sem descarregar sua bateria. Hahahahaha… preasure Guilty.

No novo filme, os anúncios foram trocados pelo apresentador interpretado por Samuel L. Jackson, conforme já mencionado acima, mas mesmo tendo seus momentos não são comparados a essas criticas sarcásticas e ácidas.

Realmente o novo filme não é ruim. E também bate de frente, com críticas, ao novos rumos que a “américa” toma. Mas faz isso de uma forma sem graça, temerosa e me fazendo sentir velho, com problemas de adulto, em vez de divertir e tornar minha vida adulta um pouco mais divertida como ela era nos anos 80. E diversão era o que Paul Verhoeven, o diretor, fez com Robocop. Já José Padilha, bom, ele deve lavar a mão com Dettol.

Segue um link nos comerciais presentes no Robocop. Além de hilários, alguns deles são bem reais, mas quando eu era criança nem me importava. Saudades do Robocop antigo.


Robocop, the funny commercials por cuppatee

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