sexta, 26 de maio de 2017

Mais de trinta

Desterrados: Uma história de zumbi e sangue em São Paulo – Capítulo 7

Capítulo 7

Carlos abriu os olhos lentamente. Qualquer outra pessoa poderia achar loucura alguém dormir doze horas seguidas em um mundo dominado por aquelas criaturas, mas depois de uma década fechando os olhos todas as noites amontoado em celas, aquele pequeno hotel de três estrelas era um palácio. Embora não fosse pai da criança que o acompanhava, o prisioneiro fez questão de escolher um quarto com duas camas – ele ficou no leito mais próximo à porta, por mera segurança.

O pequeno painel digital do relógio de cabeceira estava desligado. Não havia luz naquele prédio e, portanto, só era possível saber que estava no período do começo da manhã pela claridade da janela. Acordado, Carlos refletiu sobre suas opções enquanto apoiava as costas contra a cabeceira da cama. Naquele momento ele encontrava-se entre a cruz e a espada, e seu único veículo de fuga era monitorado e para garantir sua paz e tranquilidade era preciso fazer um favor para um porco. No meio daquilo tudo estava a vida de uma criança inocente e que aparentemente não tinha mais ninguém na vida, assim como ele.

O plano era simples: fazer aquilo que o policia pediu para ele. Aquilo garantiria mantimentos e armas para enfrentar aquelas coisas, além de combustível. Ao final, se o resgate tivesse sucesso, ele entregaria a mulher e a garota para ficar livre. Em seguida iria em direção à rádio. Mesmo que houvesse de fato uma civilização existente fora dali, era ele continuaria sendo um ex-presidiário. Se ele ficasse ali naquela cidade devastada, ele seria apenas um sobrevivente. São Paulo tornou-se uma cidade onde sobrenomes não existiam mais, e aquilo era tudo o que ele precisava.

Estava decidido. Colocando os pés para fora da cama, Carlos levantou-se e foi até a cama da criança que ainda dormia. As brotas de suor que brotavam na testa da menina eram o testemunho claro do calor ali dentro, mas as contrações faciais demonstravam que seu sono não era dos mais tranquilos. Se tivesse que apostar algum dinheiro naquilo, Carlos não teria duvidas em dizer que a menina sonhava com a bala que arrancou o tampo da cabeça da mãe dela. Não, ele não poderia nunca ser o tutor da garota, pois ele sempre seria o homem que matou sua mãe. Mas aquilo não importava naquele instante, era uma preocupação que ele teria só no futuro. Naquele momento, bastava que ele desse um tempo para ela se recompor do trauma. Enquanto isso ele iria até a lavanderia em busca de alguma roupa que o servisse. Estava há praticamente quinze dias com a mesma calça e camiseta, e sem nenhum tipo de banho. Não que ele fosse chegado a limpeza e essas viadagens, mas chegava um momento em que a coisa ficava insustentável e ao abrir os olhos Carlos sentiu que era a hora de esfregar a podridão de cima de si.

Porta aberta e corpo no corredor, Carlos olhou para os dois lados pela primeira vez. Na noite anterior ele não se deu ao trabalho de checar o perímetro. O fato do hotel estar fechado, não cheirar a podre e ele estar morrendo de cansaço serviram como baliza para o julgamento que decretou a segurança do prédio.

O quarto que ele pegou ficava no primeiro andar, próximo à recepção. Era a primeira porta com número na frente que estava aberta e tinha as duas camas necessárias. Ao olhar para trás, Carlos verificou que era quarto três. A placa atrás da mesa da recepção a sua esquerda indicava que para chegar à lavanderia ele precisaria cruzar um extenso corredor escuro ladeado por portas fechadas. Era isso ou continuar fedorento por sabe-se lá quantos dias. Talvez, dependendo do resultado daquela incursão, ele poderia buscar a cozinha e reunir mantimentos.

Enquanto aquelas linhas de pensamento voavam através de sua mente, Carlos dava os passos decisivos em direção à lavanderia. A cada porta que passava, o homem diminuía a velocidade e também a pressão com que os seus sapatos da marca Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo tocavam o chão. Silêncio, nada além de silêncio. O cheiro de desinfetante barato servia como mais uma garantia que dava ao homem a sensação de estar andando em um cômodo fantasma. Seus passos continuaram incólumes após ele ultrapassar escritórios, vestiários, banheiros e outras portas sem qualquer tipo de sinalização. Já próximo ao final do caminho, Carlos finalmente deteve-se em frente à madeira barata de cor branca que, entreaberta, deixava claro que ali jazia o ilustre lavatório de lençóis suados e surrados por prostitutas e pais de famílias pobres, que gastavam o bife e o arroz das crianças entre pernas de viciadas em drogas e destruição.

Após encostar a lateral do rosto à porta, auscultar e verificar que nada gemia ou arranhava do outro lado, Carlos segurou a maçaneta e terminou de abrir a folha de madeira, ganhando então vista total de um cômodo vazio, parcimoniosamente arrumado segundo os padrões de um hotel de bairro abandonado pelo tempo.

Como não poderia fechar a porta, afinal a menina poderia chama-lo, Carlos entrou no cômodo rapidamente passou as vasculhar rapidamente as pilhas de roupas que ficaram para trás na pilha do que deveria ter sido passado dias atrás. Calças jeans e camisetas não eram problema, pois delas havia aos montes. Não demorou muito para que o sobrevivente achasse algo que servisse. Eram limpas e de trabalhador, embora amarrotadas. Enquanto dava meia volta para retornar à porta, Carlos viu um avental de hospital pendurado em um cabide. O nome Dr. Fábio bordado no bolso instintivamente fez brotar em sua mente a imagem de um homem branco, com cabelo penteado para o lado, transando com uma garota de programa em um quarto semelhante ao seu. O telefone tocou, era sua esposa. Não, ele estava em uma reunião com um representante de uma empresa de remédios. Não, não iria demorar. Também amava ela. E voltou à carga na garota. Cretino. Ainda bem que estava morto. Provavelmente.

Durante os passos que o levaram de volta, ele teve a certeza que alguma coisa surgiria à sua frente, que alguma porta seria aberta no último instante e, assim como em todos aqueles filmes que ele assistiu durante as madrugadas, o pegaria pelas costas covardemente. A sensação crescia a cada vez que a sola do tênis barato tocava e abandonava o chão ainda marcado pelo trapo de pano que o embebeu de pinho tempos atrás. O ar ficava espesso e pesado, e as gotas de suor apostavam uma corrida solitária em sua nuca, aumentando a velocidade quando os ombros se mexiam compassadamente. Ele seria mordido. Aquele seria seu fim. Sua mãe nunca mais saberia dele, e Luiza acharia seus pedaços espalhados naquele corredor decrépito e abandonado. Ele tinha certeza que seus lábios se moveriam em um pedido solitário por socorro quando ela o encontrasse. Aquele seria seu fim. Carlos olhou para trás mais uma vez, não encontrando nada além da própria paranoia atrás de si, e assim como uma criança que recupera a coragem ao achar o interruptor do lustre, toda a pressão em sua têmpora desapareceu quando ele entrou novamente no quarto em que acordara minutos atrás.

A menina ainda dormia tranquilamente, e isso daria a ele o tempo necessário para entrar no banheiro e fechar a porta. O banho foi rápido e gelado, mas extremamente relaxante. Era a primeira vez em muitos anos que podia tomar uma ducha sem se preocupar em ser estuprado ou esfaqueado pelas costas, como daquela vez em que havia se recusado a trocar de cama com um cara da facção. A cicatriz em suas costas o lembrava constantemente que embora importante, o orgulho não era essencial na luta pela sobrevivência.

Ao se lavar de toda sujeito, imundice e cansaço, Carlos aproveitou a água para lavar também toda a culpa e arrependimento que irradiavam de suas entranhas. A espuma em sua cabeça o fez mensurar o que havia ganho realmente desde que aceitou entrar para o partido. Sua vida era uma merda antes, vivia na favela e trabalhava de servente. Sua mãe lavava roupa fora e seu pai havia muito partido com furos de .38. Seus irmãos partiram pelo mundo em busca da próxima dose, mulher ou oportunidade. Sua vida agora era uma merda, sua mãe continuava lavando roupa para fora e ele havia feito furos de bala no pai de alguém. Carlos deu dez anos pela marginalidade e não ganhara nada além de uma reputação etérea, que já não valia nada. Sua mãe não falava mais com ele e nem o visitava. Talvez aquela merda lá fora pudesse dar uma chance nova a ele, uma oportunidade de ser o homem que ele nunca conseguiu ser.

Enquanto vestia a calça jeans e uma camiseta branca escrita em preto “Keep Calm and Carry On”, Carlos decidiu o que faria: cumprir a missão, arrumar armas, entregar a garotinha em segurança e sumir para recomeçar do zero. Todo bandido dizia que a vida honesta era uma merda, mas ele queria almoçar em uma padaria em precisar olhar por cima dos ombros no olho de cada um. Queria tranquilidade, mesmo que naquele mundo de hoje não houvesse pais padarias e muito menos tranquilidade. Ele precisava da enchente bíblica dele.

Quando Carlos entrou no quarto a garota já estava sentada na cama, passando as mãos no cabelo e tentando prender as mechas crespas. Carlos sorriu e fechou a porta do banheiro atrás de si, indo em seguida até a janela do quarto, que estava entreaberta.

– Quer tomar um banho, Luiza? – Com a janela aberta, o homem foi até o criado mudo e apanhou a arma, colocando-a novamente na cintura. Havia feito aquele gesto dezenas de vezes para roubar alguém. A intenção agora, entretanto, havia mudado. – Eu procurei algo que servisse em você, mas não tinha nada… – O homem deu de ombros, com o rosto contorcido pelo constrangimento.

– Não! Esse lugar me assusta, moço…. Eu quero meu pai! Me leva pra casa, por favor?

– Luiza… – O homem foi até a cama e sentou do lado da garota. Ele não conseguia olhar no olho dela para falar aquilo, não naquele momento. – Sua casa está longe e você viu o que ficou lá, não viu? Não dá pra voltar, é muito… – Por um momento a palavra “zuado” passou pela sua cabeça, passou e foi, sem ficar. Se queria uma vida de bacana, precisava usar palavras de bacana. – Perigoso. Nós vamos fazer o que aquele cara mandou a gente fazer, tá? Nós vamos buscar essa mulher, e aí ele vai dar comida e vai ajudar a gente. Depois que a gente pegar essa mulher, eu vou te levar para um lugar seguro onde esse cara falou que é pra gente levar ela. Você fica lá e procura o seu pai, tá?

– Você acha que meu pai foi para lá? Mas ele falou que ia voltar, ele prometeu que não ia me abandonar…

– Ser adulto é difícil, Luiza, às vezes a gente não tem como escolher as coisas. Ele poderia estar na rua e a polícia obrigou ele a ir embora…. Às vezes ele foi pra esse lugar buscar ajuda e agora não deixam ele voltar. – Carlos sabia que a verdade era outra, e que o sujeito saiu para buscar algo e encontrou a morte. Ele não falaria aquilo para a garota naquele momento. A esperança era algo sagrado, ele sabia. Era o que o fez aguentar cada dia atrás da cela. Um Habeas Corpus, uma redução de sentença, um resgate, uma fuga, um baseado. Alguma coisa. Era a esperança que deixava um homem são.

– Tá bom. – Dito isso, a menina simplesmente levantou e caminhou até o banheiro. Lá, pegou a escova de dente no plástico descartável que estava ao lado da usada por Carlos e escovou os dentes. Na volta, ele trouxe ambas e dois potinhos de pasta dental. – Minha mãe sempre mandou escovar o dente de manhã e de noite para não dar cárie!

Carlos sorriu e pegou o que a garota trouxe, colocando no bolso. – Vamos? –Sair do quarto e atravessar o saguão foi algo rápido e fácil. O silêncio sepulcral que envolvia o saguão os levou em segurança até a porta. Com o dedo indicador nos lábios para indicar silêncio, Carlos abriu levemente a pesada placa de madeira e olhou para fora. Nada, estava tudo em paz. O homem não sabia, mas os zumbis que perambulavam pela região haviam sido atraídos durante a noite pelo clarão de fogos de artifício disparados por alguém.

O homem então abriu a porta um pouco mais e saiu, fazendo um gesto para a garota acompanha-lo. A menina ainda estava passando sob o batente quando ele a segurou pelo braço e entrou novamente, fechando a porta mais uma vez atrás dos dois. – A gente esqueceu a comida… – Murmurou, mudando de caminho e indo em direção a cozinha. Aquele prédio era um grande depósito de móveis, e os únicos a se mover além dos ratos eram os dois, e em dez minutos o homem e a garota já estavam de volta. Ela abraçada a uma sacola de feira e ele com uma caixa de papelão em mãos.

A porta foi aberta novamente e ambos saíram, ficando então encostados na madeira que fora fechada atrás deles. Colocando a caixa no chão, Carlos fez sinal para a garota permanecer ali em silêncio. Agachado e em silêncio, ele venceu os pouquíssimos metros que o separavam da viatura. Nada na esquerda, nada na direita. Silêncio e solidão de ambos os lados. Era seguro, deveria ser. A chave saiu do bolso e foi até a porta do motorista, destrancando o automóvel.

Carlos abriu as duas portas do lado do motorista e correu até a garota. –Vamos! – Ele então apanhou sua caixa e correu até o carro, colocando-a no banco de trás e em seguida ajudando a garota a subir pela sua porta. A menina largou a sacola no banco de trás e sentou-se no passageiro, enquanto o homem fechou a porta de trás, sentou em seu banco e se trancou lá dentro.

– Vamos? – O homem olhou a garota ao mesmo tempo que espetava a chave na ignição. Naquele momento ele se deu conta que não fazia a menor ideia de como chegar em seu destino. Tudo o que sabia era que a mulher estava na Serra da Cantareira e ele tinha apenas algumas munições restantes. A garota fez que sim com a cabeça, mas olhando a caixa no banco de trás com o rabo dos olhos. Há dias que ela devia estar passando fome.

– Luiza, eu vou chamar o cara no rádio, tá? Faz silêncio e não conta que a gente tem comida, viu? Enquanto isso vai para o banco de trás e olha o que a gente tem para comer. Não come nada porque pode fazer barulho, mas já escolhe o que você quer. Beleza? – A garota mexeu a cabeça para cima e para baixo de forma acelerada e saltou entre os assentos da frente.

– Luiz, está por aí? – Só naquele momento Carlos se deu conta da semelhança entre o nome da garota e do policial. Mundo pequeno e cheio de coincidências aquele.

Enquanto o rádio não emitia uma resposta, Carlos manteve o carro estacionado. Se o policial não podia vê-lo de um satélite, o que parecia claro, então era bom se mexer e correr o risco de deixar o cara perdido, pelo menos enquanto eles eram sócios, por assim dizer. Manter o veículo estático sobre o asfalto não era sinal de ficar sem fazer nada, entretanto. O pé direito permaneceu sempre sobre o acelerador e o esquerdo sobre a embreagem, ao passo que os olhos vasculhavam os espelhos do carro. Nada ali e nem aqui, muito menos lá. Para um bairro como a Freguesia, aquela rua estava muito deserta para o seu gosto.

– Luiz, tá por aí, cara? – A segunda chamada despertou o policial que dormia reclinado na cadeira com os pés sobre a mesa. Em um dia normal ele nunca agiria daquela forma, não era adequado, mas agora ele podia se dar esse tipo de regalia. – Oi, tô, tô aqui. Vocês estão prontos?

– Estamos no carro já. E agora? – Enquanto engatava a primeira marcha, Carlos fez que sim com a cabeça enquanto olhava a garota pelo espelho retrovisor. A menina tinha nas mãos um saco de pão de forma e nas mãos um olhar de fome. O motorista não estava atrás, seu estomago denunciava constantemente o abandono que havia sofrido nos últimos dias. Ele poderia comer um pouco enquanto dirigia, não agora.

– Você vai para o Parque da Cantareira. A mulher que você vai resgatar chama Ellen. A última vez que ouvimos falar dela foi a dois dias atrás por telefone, antes de cortarem a linhas e a luz.

– Por que vocês cortaram a luz? Fica mais perigoso de noite no escuro sem ver nada! – Ao soltar o botão do rádio, Carlos deu sinal e a menina começou a comer a bolacha.

– Você não vê o zumbi e ele também não te vê, cara. Os bombeiros acharam que deixar luz na cidade toda sem ninguém para usar poderia causar incêndios. – Luiz então se deu conta: por que estava falando aquele tipo de coisa para um bandido? – Você tem três caminhos para chegar na Cantareira. Ou você vai pela Marginal, que está toda bloqueada, ou você vai por dentro pelo Limão, Casa Verde, Santana e sobe pra lá ou você vai pela periferia, pelo Lauzane. O que você prefere?

Aquela decisão era difícil. Carlos conhecia o Lauzane como a palma da mão e saberia navegar ali dentro de forma muito fácil. Ele também sabia, entretanto, como as ruas eram estreitas e malcuidadas pela prefeitura, e seria impossível prever o que o poder público havia feito àquela área nos anos em que ficou fora. Além disso, muitas pessoas moravam naquele bairro e que com toda certeza teriam sido as primeiras a serem abandonadas pela prefeitura na catástrofe. Muitas casas e pessoas, ausência de médicos, polícia e casas mal construídas. Aquele lugar provavelmente estava apinhado de mortos-vivos e com as ruas completamente obstruídas.

– Eu já passei pela Marginal, tá tudo fodido. Eu vou pelo Limão.

– Ótimo, eu ia sugerir a mesma coisa. Vocês precisam agora pegar comida e munição. Eu acho que dá para chegar na casa da Ellen em dois dias. Não pode demorar muito senão as chances de sobrevivência dela diminuem muito. Você vai chegar até a Casa Verde até o almoço. Lá você pega as coisas. Santana até o começo da noite. Amanhã de tarde você chega lá. Eu vou te passando o roteiro e instruções. QAP?

– Como tá a situação pela Casa Verde e o caminho que você vai me mandar? Tem muito dessas coisas por lá? – Carlos não queria usar a palavra zumbi, não havia necessidade de assustar ainda mais a garota.

– Cara… – Luiz respirou fundo e deu um longo gole na xícara de café gelado sobre a mesa. – A coisa toda está igual na cidade toda. Eles estão pela rua. Ficar dentro do carro é o que você precisa fazer. Não entre em uma rua sem saída e você vai se dar bem. Existem áreas piores e áreas não tão ruins, mas eu não sei te dizer qual é exatamente o melhor caminho.

Embora aquelas palavras pudessem enervar qualquer pessoa, afinal Carlos estava por mergulhar no desconhecido, a franqueza do policial o tranquilizou. Pelo menos não estava sendo jogado na merda de propósito. Melhor assim.

– Certo. Para onde eu vou agora? – Já de volta ao banco da frente, a garota estendeu ao prisioneiro uma prancheta e caneta largadas ao chão e que eram usadas por policiais para anotar ocorrências e derivados.

Anotando rua por rua, curva a curva passadas pelo policial através do rádio, Carlos traçou um roteiro aproximado até rua que abrigava o arsenal e mantimentos prometidos.

– Vamos falando. Vou desligar. Estou indo para lá. – Carlos então colocou o microfone no suporte no console central da viatura e engatou a primeira marcha, jogando ainda mais fumaça pelo escapamento do automóvel. – O que tem pra gente comer, Luiza? Já viu tudo?

Enquanto mastigava a segunda fatia de pão de forma tirada do pacote, a garota fez um inventário mental de tudo o que ela havia revirado dentro da caixa e sacola. – A gente tem bolacha, torrada, pão, pêssego de latinha, peixe na latinha e umas outras coisas que eu não sei o que é…. quer? – A menina estendeu então uma fatia do pão, que foi agarrada avidamente pelo motorista, que deslocava então a primeira rua naquela maratona que se iniciava.

O carro foi guiado com calma e sem pressa. As ruas não estavam completamente bloqueadas, mas era uma missão trabalhosa se deslocar contornando entulho, carros abandonados e diversos corpos que apodreciam no meio fio. A cada corpo novo sem vida e ensanguentado que era contornado ou desbravado pelo automóvel, a garotinha fazia o sinal da cruz e fechava os pequenos olhos, franzindo a testa.

Mesmo com a circulação de ar causada pelo vidro quebrado, a atmosfera dentro do veículo era pesada e deprimente. As linhas marcadas de dor e desgosto no rosto da criança o machucavam, em um sentimento que há muito ele não sentia. Era como se ele visse na menina toda opressão do mundo que ele enfrentou quando criança na periferia.

– Eles estão com Deus, Luiza…. É melhor que ficar andando por aí daquele jeito. – As palavras saíram vacilantes, temerosas. Fiel depositário da crença de que homens não choram, e sentimentos são apenas desculpas abraçadas por covardes, ele não tinha prática alguma em consolar e confortar. Aquilo era uma especialidade das bichas, coisa que ele não era.

– Igual a mamãe? Meu pai disse que ela só estava doente…

– Ela estava doente, hoje ela está descansando… Tá bom? É melhor descansar do que terminar daquele jeito. – O homem terminou a sentença apontando um homem sem as pernas que se arrastava pela rua usando os braços, que terminavam em um par de mãos envoltos em podridão e sangue seco. A menina virou a cara, não aguentando olhar aquilo. Ela ficou muito tempo trancada com a mãe naquela sala para saber exatamente como era “aquele jeito” que Carlos falava.

– O que vai acontecer agora? – A menina olhava o horizonte acompanhando, admirando um pequeno gato rajado que, ignorando a merda que assolava o mundo de um jeito que só os felinos sabiam fazer, sentava no parapeito de um prédio e lambia os dedos dos pés preguiçosamente.

– O que precisa ser feito, Luiza. Vamos buscar a tal da Ellen e depois vamos atrás do tal lugar que está seguro. Tá bom? – Engolindo então o último pedaço daquela fatia de pão, Carlos estendeu a mão em direção ao pacote. Era o sinal universal para pedir mais, e ele foi imediatamente compreendido pela garota, que colocou outro pedaço sobre a palma já suarenta do prisioneiro. Seu colo estava repleto de farelos, mas aquela era uma preocupação que ele nunca teve, e não seria dentro de um carro policial que ele começaria a se importar com etiqueta e limpeza pessoal.

– Tá, eu acho…

O ambiente dentro da viatura silenciou por diversos minutos. Carlos pensava em sua vida e tentava estabelecer um possível destino ou paradeiro para cada pessoa que conhecia. Sua mente traçou uma pontuação que levava em consideração quesitos como dinheiro, saúde, conhecimento, localização e derivados. Ao final, baseado em um número hipotético e totalmente aleatório, essa pessoa poderia estar viva ou morta. A conclusão que Carlos chegou não era nada animadora. As únicas pessoas que poderiam estar vivas eram aquelas que ele, um homem recém adepto da honestidade, não queria encontrar. Carlos era abençoado pela ignorância de saber que, em meio ao caos da destruição do mundo, o governador havia emitido uma ordem para que a polícia, nos esforços de evacuação, executasse todo e qualquer criminoso, foragido ou já em liberdade, e também aqueles que eram suspeitos, mas que tinham sempre as boas graças da justiça. Inocentes também foram presenteados com o chumbo, mas aquele era um destino já fadado aos comuns: bala ou dentes.

Quando os pneus do automóvel tocaram o asfalto recém renovado de uma rua, um pensamento pipocou na mente do motorista. Talvez não fosse ruim estabelecer um novo vínculo de amizade com aquelas pessoas. Se fosse traído pelo policial, ele precisaria de armas para sobreviver naquele novo mundo cão.

– Arg… – A janela do motorista sem querer fora aberta por um cotovelo distraído. A corrente de ar formada pelo espaço vazio nas duas portas trouxe o odor nauseabundo das ruas paulistas, uma mistura de sangue, merda e podridão.

– Carlos, olha lá! Ó! Tem gente! – A menina largou o pacote de pão sobre o painel e ficou de pé sobre o banco, apontando e batendo de leve com o pequeno dedo mulato contra o vidro da viatura. O barulho da pequena unha com esmalte descascado serviu como trilha sonora à suave frenagem.

Mais abaixo na rua que estavam cruzando era possível ver duas pessoas em cima de uma banca de jornal. A boa notícia era que pareciam estar vivas, pois acenavam com os braços de modo descontrolado. A má notícia era que a banca estava cercada por uma multidão de mortos-vivos. Ao que parecia todos os zumbis da região queriam a última edição do cardápio do dia.

Imaginando a expressão de esperança que deveria ter se formado no rosto daquelas duas pessoas, Carlos foi tomado por uma angustia inédita a ele. Tentar resgatar as duas pessoas em cima da banca de jornal era a postura correta para uma pessoa correta. Largar alguém à beira da morte certa era simplesmente hediondo, e ele nunca perdoaria os agentes carcerários que o largaram para morrer naquela solitária. Entretanto, uma tentativa de resgate naquelas circunstâncias era extremamente arriscada. Aproximar demais com o carro poderia deixá-los encurralados e cercados por dentes famintos. Ele agora era responsável por uma pequena garota. Devia pensar por dois. Ele precisava entregar a menina ao pai e ponto final. Talvez outras pessoas passassem por ali e ajudassem aqueles dois. Salvar aquela menina é o que, aos olhos dele, o redimiria junto a Deus para que, na inevitabilidade da morte, ele pudesse atravessar os portões guardados por São Pedro.

O poder de decisão de Carlos se foi no momento que seus olhos encontraram os da garota. Ele podia ver que Luiza já havia decidido resgatar aqueles pobres diabos.

– Não dá, Luiza…. É muito perigoso! – Carlos falava baixo enquanto colocava o carro em ponto morto, tentando diminuir o volume emanado pela explosão de gasolina dentro do motor.

– Você me salvou… quem vai salvar eles? – O cenho enrugado e o lábio contraído eram uma demonstração clara da destruição dentro da garota. Em uma semana ela se viu abraçada por mortos-vivos, o pai partir e a mãe perder a cabeça em uma poça de sangue coagulado habitado por vermes.

Aquela pergunta calou o homem. A menina estava certa. Deixar aqueles dois para trás o colocaria no mesmo patamar das pessoas que o deixaram para apodrecer na cadeia. O prisioneiro se deu conta, aliás, que ele havia saído sem procurar seus antigos colegas de cela que poderiam estar trancados e passando fome. Porra. Ele precisava mudar seu destino.

Sem dizer nada, Carlos manobrou o carro vagarosamente até apontar a frente do veículo para a banca de jornal. Piscou o farol duas vezes para indicar que havia visto as duas pessoas, que prontamente se abraçaram.

Os olhos do homem escrutinaram o ambiente a sua volta. Nenhuma alternativa rápida e plausível. Talvez se ele entrasse no prédio que ficavam em frente à banca, ele poderia tentar improvisar uma corda com as mangueiras de incêndio. Ele poderia tentar se aproximar de uma rua paralela e colocar fogo em um carro qualquer. Uma explosão seria mais do que suficiente para atrair aquelas coisas, abrindo então uma passagem segura para que eles corressem. Mas e se não funcionasse? E se a explosão atraísse ainda mais daquelas coisas?

– Tinha um caminhão lá atrás! O papai dizia que ninguém podia machucar ele no caminhão dele! – Os olhos da garota brilhavam, como se ela tivesse dito a maior verdade de todos os tempos, e também um grande segredo. No fundo, ela estava excitada por agora ser a sua vez de salvar alguém. Aquela história de donzela em apuros era coisa de menininha.

– Claro! Claro! Verdade! – Carlos rapidamente manobrou a viatura e a parou no meio fio. – Fica abaixadinha, eu vou trancar o carro, tá? Vou, busco eles e venho te pegar, tá? – A mão do homem foi até a arma que repousava em cima do colo.

– Tá! Papai do céu vai proteger você igual ao meu papai! – A garota então se enfiou então embaixo do painel da Blazer, abrindo um pequeno sorriso luminoso. Aquele pequeno resgate apagou todo o passado recente da criança, era como se aquele pequeno verme que rastejou sobre um pedaço do couro cabelo da sua mãe não existisse mais.

Carlos silenciosamente saiu da viatura e abaixou-se ao lado da unidade M-15240 da Polícia Militar. Os olhos fixos nos arredores não captaram que seu tênis pisava no que antes fora a mão de uma mulher. Sem perceber, Carlos havia readquirido um hábito herdado de sua mãe extremamente católica. Ao dar o primeiro passo em direção ao caminho de volta, o prisioneiro fez o sinal da cruz e beijou o dedo indicador. Que o senhor o protegesse, pois aquele seria um caminho longo e árduo.

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