Wednesday, 22 de January de 2020

Mais de trinta

Sem cor, nem documento

Duelo de Titãs

Exemplo da luta contra o racismo no esporte.

Madrugada de segunda, 10 de março, e o sono passeando por aí. Zapeando pelos canais, peguei o começo do filme Duelo de Titãs, com Denzel Washington. Lembro-me de ter assistido ao longa-metragem em 2000, com a minha amiga Maria Eugênia, no cinema.

O enredo retrata as tensões raciais e reais ocorridas na cidade de Alexandria, Virgínia, nos Estados Unidos, envolvendo um time de futebol americano, os Titans. Denzel contracena com Will Patton, ator loiro de olhos azuis. Ambos são técnicos de futebol e têm de conviver para levar o time “branco&preto” à vitória do campeonato estadual.

Adorei rever a história — Denzel é ótimo! —, mas o tema sempre me deixa triste. É tão vergonhosamente atual, que fico muito incomodada, triste mesmo. Afinal, recentemente os jogadores Tinga, do Cruzeiro, e Arouca, do Santos, e o árbitro Márcio Chagas sofreram insultos iguais aos atletas do filme. Não entendo isso! Não consigo compreender como ainda tem gente preconceituosa. E isso independe de cor de pele.

Lembro-me que em 1994 os bancos em geral passaram a entregar talões de cheque em casa. Certa vez, o meu não chegou. Chegaram os dos meus pais e do meu irmão, todos com conta corrente na mesma instituição. Telefonei, avisei a gerente e retirei outro talão na própria agência. Dali uma semana, uma moça da loja Rip Curl, do Shopping Eldorado, me ligou dizendo que eu havia me esquecido de assinar o cheque e se eu poderia volta à loja para resolver essa pendência. Como? Respondi que deveria ser um engano, pois nunca estive naquele local. Com tom ameaçador, a jovem disse que ela mesma tinha vendido as peças de roupas e que sabia quem eu era. Acalmei-a dizendo que naquela noite eu iria resolver essa questão. Desliguei sabendo onde havia parado pelo menos uma folha do meu talão de cheques “sumido”.

Pois bem. Fui à loja, entrei e perguntei pela vendedora. Chamaram-na e ela, toda gentil, veio em minha direção. Era uma negra linda, com aqueles dentes “piano”. De cara disse: “É a primeira vez que você vem aqui, não é? Nunca esqueço um rosto”. Sorri um sorriso amarelo e falei: “Engraçado você dizer isso, porque vim aqui para assinar o tal cheque.” Seu queixo literalmente caiu. “Como? Mas não foi para você que eu vendi. Era uma moça alta, de pele bem clara, com cabelos castanhos lindos, mechas claras, unhas bem feitas.” Perguntei se ela pediu algum documento, como carteira de identidade ou o cartão do banco. Ela explicou que não precisava, pois “era uma pessoa fina, de classe, que falava bem o português”. Não aguentei: “Se ela fosse negra, talvez você nem a atendesse, não é?”. Ainda chocada, ela assentiu com a cabeça.

E foi assim que o preconceito dessa moça — não interessa se com gente da própria cor ou não, mas é preconceito — fez com que ela tivesse um prejuízo de CR$ 3.000 (três mil cruzeiros reais, moeda da época). A tal loira “fina e educada” fez a festa não só naquela loja como em outras do mesmo shopping, conforme soube depois pela minha gerente. Ela comprou tudo o que quis e do mais caro porque era branca — cor que simbolizou honestidade, sinceridade e credibilidade. Como se esses e outros tantos atributos e sobretudo os defeitos tivessem cor. Lamentável. Triste de doer.

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