Tuesday, 12 de November de 2019

Mais de trinta

E quando uma mulher apanha do marido, mas gosta?

Recebi uma questão por e-mail em que a leitora disse que o marido lhe deu umas bofetadas depois de uma discussão e isso mudou a vida de ambos. Nelson Rodrigues, em um de seus textos afirmou “Toda mulher gosta de apanhar, só as frígidas reclamas, o problema é que o homem é que não gosta de bater”. Mas, segue um trecho do relato da leitora que deixará os demais estarrecidos:

“Sei que ele é um bom homem e um bom marido, pois ele tenta me agradar e me fazer feliz. Tirando a violência ele é uma boa pessoa. Agora vem a bomba, eu admito que AMO apanhar dele, amo quando ele me pega e me dá bofetadas, isso me deixa com muito mais tesão e depois o sexo fica muito mais gostoso. Fico confusa pois eu sou um pouco feminista, admito que me sinto um lixo na hora em que ele me bate, mas na cama o lixo vira prazer. Sinto que estou traindo a causa pois lutamos tanto por uma lei contra a agressão a mulher e eu aqui apanhando do meu marido. O que há de errado comigo?”

O preconceito que há em todos

Li e reli a pergunta algumas vezes para poder formular minha opinião, na primeira vez achei-a uma maluca que gosta de apanhar, na segunda achei que o marido é um animal e deveria estar preso, depois comecei a me livrar de alguns preconceitos e percebi uma pessoa em busca da felicidade ao mesmo tempo em que está em conflito por saber que mundo afora seria moralmente condenada.

Não sei bem porque, mas começo essa resposta prevendo o teor dos comentários que ela terá. Provavelmente a leitora será a mulher mais idiota do mundo e eu o porco machista neoliberal. Ok, geralmente meus detratores nem se dão ao trabalho de arrumar adjetivos bacanas, ficam só no cretino, machista e preconceituoso. É uma pena, contudo é prova irrefutável de que só arrumo encrenca com idiotas…

Vamos deixar a opinião pública de lado, aliás, sempre que tiver em dúvida do que fazer, nunca a siga, apenas a conheça. Digo isso por vários motivos, o principal é que a maior parte das pessoas é adepta do “faça o que eu digo”, mas raramente segue a risca suas próprias convicções. É disso que se trata a questão, acreditem.

Diante de uma situação destas onde a moral e os bons costumes mandam fazer uma coisa e o seu “ego” quer outra, decide-se por qual caminho?

Em alguns momentos da vida devemos ser egoístas, claro que, no bom sentido. Sim, existe um bom sentido para o termo. Apesar de parecer estranho o culto ao “eu” é o princípio básico da felicidade. Quando sempre nos colocamos em segundo ou terceiro plano abrimos mão de ser felizes.

Vou frisar o “SEMPRE” e o “EM ALGUNS MOMENTOS” do parágrafo anterior porque já escutei e li muita baboseira por conta de pessoas que não lêem direito o que eu escrevo.

Não estou defendendo que todos só olhem para o próprio umbigo, apesar de saber que muita gente o faz e fica posando de amiguinho da galera. Deixando ainda mais claro, acho que se você entrar na onda de seguir tudo o que as pessoas lhe indicam é bem provável que acabe entrando em depressão. Por outro lado, se deixar tudo de lado acabará só. Deve haver um equilíbrio entre as duas formas.

Agora vem a parte que horrorizará algumas pessoas…

Se gosta de apanhar…

Se você a leitora é feliz apanhando do cara e ele gosta de bater, que vivam juntos para sempre! Isso sim é que é sinergia entre um casal! Recomendo que não se separem porque será difícil encontrar outras almas gêmeas como essas.

Nesse momento gritos de “queima ele” estão se ecoando atrás das telas que estão com essa resposta aberta, mas é assim que penso. As preferências, taras, credos, preconceitos deveriam ser respeitadas pelos demais, mas admito que dada a hipocrisia de algumas culturas recomendo não revelar ao público o que lhe é privativo.

Funciona assim, em um mundo perfeito as mulheres poderiam sair por aí falando que gostam de sexo sem ser rotuladas como prostitutas não remuneradas, afinal, se um homem tem essa postura, nada acontece. Como não é assim que a banda toca, essa informação pode ficar privada, certo? Para que mostrar ao mundo preferências sexuais? O que ganhamos com isso? A menos que queira fazer fama para deitar na cama, nada.

Algumas leitoras podem estar pensando que eu sou conservador, de fato elas tem razão, sou mesmo… Ainda prefiro manter certas mentiras como verdades a fim de preservar a “governabilidade” das relações. Quero acreditar que nossas mães não transam, que as mulheres não traem por tesão, que nossos chefes não nos exploram, que o nosso ex-presidente nunca soube de nada e por fim, que as moças vão ao banheiro apenas para se maquiar… Desculpe-me pelo eufemismo na última parte, mas é assim que vai ser sobre esse assunto escatológico!

Eu sei que é bobagem, mas se tem gente que acredita em Papai Noel, no socialismo e que as atrizes-modelos-manequins são apenas atrizes-modelos-manequins, eu também posso decidir no que acreditar ou não!

Quando é que optamos por seguir o que a sociedade dita?

Separando o sexo do cotidiano

Tenho uma regra simples, se sua conduta só diz respeito a você, não ofende ou machuca outras pessoas e não traz consequências futuras, siga o que sua cabeça manda. Por exemplo, não é porque gosta de sexo anal ou outro fetiche que deve comprar uma camiseta com texto “Eu dou o cu, e daí?”

O que eu me pergunto em situações como essa é sobre aonde mais a coisa pode chegar. Acho bacana procurar comunidades e grupos de discussão sobre o assunto. Aconselho a conversar com o marido e dizer que fica excitada quando apanha, mas que gostaria de combinar uma palavra chave para parar o processo quando for longe demais, recomendo palavras curtas,  “paralelepípedo” está fora de questão… Talvez não dá tempo de dizer e aí a vaca já foi para o brejo.

É importante colocar que o negócio com as bofetadas é sexual, não sendo uma conduta aceita fora desse aspecto. Cabe explicar as consequências que podem acontecer em caso de reincidência. Separando a perversão do cotidiano, é bom dizer como se sente a respeito, assim só apanhará do jeito que gosta e não perderá a dignidade.

Deixando o lado sexual, tem uma coisa que me preocupa na pergunta, o que motiva a leitora a gostar de apanhar ficou claro, mas o que motiva o marido a bater? Isso é importante.

Desconsiderando a hipótese da pessoa estar sob efeito de entorpecentes ou que tenha problemas mentais, acredito que a violência é uma forma de dizer o que as palavras não conseguiram, talvez seja a hora de uma conversa franca sobre as expectativas de cada um a respeito do relacionamento.

Entre duas pessoas equilibradas o diálogo resolve a maioria dos conflitos, pense nisso.

Até mais!

Obs. Caros leitores, sou contra a violência doméstica para qualquer uma das partes envolvidas. Acreditem, existem muitos homens que apanham de suas mulheres, como também há aqueles que gostariam de apanhar, mas isso é assunto para outro dia.

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