domingo, 30 de abril de 2017

Mais de trinta

E quando alguém que você ama quer morrer?

Lido muito bem com a morte e isso não é de hoje. Meu pai faleceu quando eu tinha apenas 17 anos, depois de passar os últimos anos de sua vida muito doente, experiência que acabou me dando muito tempo para pensar a respeito.

Como sou espiritualizado, mesmo que não adepto a uma religião determinada, acredito que a morte seja um dos estágios da vida. Inclusive, uma etapa tão necessária quanto o nascimento.

Não há qualquer coisa na morte que me aflija. Caso os católicos e evangélicos estejam certos, encontrarei o paraíso no meu pós-vida após me redimir dos meus pecados. Posso passar por alguns momentos no purgatório, mas uma hora chegarei lá.

Considerando os espíritas, tampouco preciso me preocupar, pois acredito que não passarei muito tempo no umbral e tão logo possa, procurarei uma oportunidade de retornar a vida na terra.

Desconsiderando a religião, se eu seguir os metafísicos, nem morrer eu vou. Posso continuar existindo em uma realidade paralela, talvez ao mesmo tempo que agora. Aliás, o tempo para o metafísico nem é um elemento chave.

Mesmo que eu não siga nenhuma corrente de pensamento, na pior das hipóteses, a morte é o fim da vida, ou do estado de consciência. Caso seja realmente o fim, tudo bem, uma hora tudo que nasce, morre. Completarei meu ciclo.

Escrevi as linhas acima para deixar claro o meu entendimento sobre o tema.

Claro que, mesmo sem temer a morte, também não penso em apressá-la, de forma alguma. Até ela chegar, ficarei por aqui, me divertindo com a vida.

Recentemente venho passando por um problema que não estou conseguindo lidar muito bem. Com quase setenta anos, minha mãe descobriu um câncer de mama e, de brinde, um enfisema pulmonar — doença crônica (não há cura) que restringe a capacidade pulmonar, ocasionada, no caso dela, pelo fumo.

Aliás, ter nascido em uma família com muitos fumantes fez com que eu tivesse nojo de cigarro, complementado com uma rinite alérgica que impossibilita a minha permanência em locais em que o fumo seja permitido.

Pois bem, quem já passou ou já acompanhou um processo de quimioterapia sabe como trata-se de um quadro delicado.

A resistência imunológica é derrubada e o doente precisa tomar um extremo cuidado para não pegar qualquer tipo de vírus ou bactéria, o que ocasionaria a sua morte. Daí, pessoas em tratamento, devem evitar locais públicos ou qualquer tipo de contato com muita gente.

No caso da minha mãe, além de restrição alimentar, repouso e da reclusão, também foi expressamente recomendado que parasse de fumar e de ingerir bebidas alcóolicas.

Uma pessoa que luta pela vida, diante das recomendações, sairia de um consultório pensando em virar monge, mas não foi bem isso que aconteceu.

Não que ela tenha feito tudo às avessas, mas certamente não tomou os cuidados devidos. Parou de fumar por um pequeno período, mas voltou. Se expôs a diversas situações de risco de contágio. Tomou a sua cervejinha em algumas ocasiões. Não repousou nem mesmo nos dias anteriores a sua cirurgia.

Para não ter que ouvir reprimendas, passou a mentir sobre seus cuidados.

As ações me levaram a crer que, na cabeça dela, a vida não seja mais interessante a ponto de fazer sacrifícios para prolongá-la ou aumentar suas chances de sobrevivência. E querem saber? Talvez, em sua situação também fizesse o mesmo, fora as mentiras, claro. Chamaria as pessoas próximas e comunicaria minha decisão. Mas, eu a entendo.

Mas aí é que mora o problema.

Entender que uma pessoa cansou da vida é moleza para mim. O problema é ficar assistindo a esse “suicídio” enquanto filho.

Mesmo considerando a morte como algo natural, nem por isso desejo ver a morte de alguém que amo, muito menos presenciar a contribuição pessoal que a pessoa faz para que ela aconteça.

Já se passaram alguns dias da cirurgia, que foi bem sucedida, e até agora não consegui falar com ela. Preferi me manter em silêncio do que falar bobagens durante sua recuperação. Até que eu possa visitá-la sem que isso me faça mal, assim permanecerei.

Fosse outra situação, a de alguém que está batalhando pela vida, com certeza eu estaria a seu lado. Mas, é cruel demais acompanhar o fim da vida de alguém tão próximo, assistindo ações deliberadas que reconhecidamente contribuem para o desfecho.

Uma coisa é respeitar as decisões, coisa que faço, outra é endossá-las. Acredito mesmo que todos são responsáveis o suficiente para decidir por encurtar suas vidas e não cabe a mim tentar dissuadir ninguém do contrário.

Contudo, também sou responsável pelo meu bem estar, físico e emocional. Sei o quanto me faz mal acompanhar o desdém de uma pessoa muito próxima para com a sua vida.

Claro que toda essa situação gera uma série de reflexões e também lembranças.

Passei por isso com meu pai, mas não tinha a maturidade suficiente para entender. Fiquei bastante revoltado à época por vê-lo fumar dentro da UTI, mesmo vendo o esforço que fazia para respirar. Hoje também entendo sua decisão.

Não se pode pedir a alguém que quer morrer que lute pela vida, nem se exigir de alguém que não quer, que assista a tudo com um sorriso.

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