Tuesday, 25 de June de 2019

Mais de trinta

Você sabe quem é você?

Poucas vezes na minha vida alguém tentou me intimidar dizendo algo “Você sabe com que está falando?”, mas em todas tive vontade de rir, pois, ao menos para mim, ficou claro que estava falando com alguém que não fazia a menor ideia de quem era.

Vou te fazer uma pergunta e quero que pense na resposta com muita sinceridade: você sabe quem é você?

Eu sei, a resposta óbvia tem a ver com o nome que te escolheram, com o cargo que ocupa transitoriamente, ou ainda algo que te vincula a alguém. Todas as respostas, apesar de corretas, não o levarão aonde quero chegar.

Minha pergunta se refere a você, não ao que fizeram de você. Entende a diferença?

Desde os seus primeiros passos o mundo passou a te transformar.

Foi assim que você aprendeu que não deve colocar os cotovelos em cima da mesa durante o jantar, que ter uma roupa bacana ou um celular do último modelo te farão parecer um vencedor, que você precisa de um emprego que garanta o teu sustento mesmo que não goste dele, que as pessoas têm inveja do seu sucesso e que para viver melhor você deve ter orgulho dos seus feitos, mas ostentá-los com prudência para não parecer arrogante.

Já pensou como você seria se não tivesse tido tanta influência do seu meio? Melhor ainda, já pensou em como você, por necessidade, medo ou falta de bom senso pareceu idiota, agindo como um idiota, em diversas situações? Acredite em mim, não foram poucas ocasiões.

Se eu ficasse devendo um real para cada vez que me portei mal, com certeza, estaria mais endividado que a Argentina nesse momento.

Nem chamando a ajuda de um matemático experiente conseguiria contabilizar a quantidade de vezes que agi como um idiota. Me impus muito mais do que o necessário em muitas ocasiões, ora por necessidade, ora por medo e também, mais recentemente, por costume.

A vida é dura?

A justificativa para minhas atitudes era muito simples: a vida é dura. Se eu desse mole, seria passado para trás.

Não posso dizer que a vida me deu moleza, mas mesmo nas vezes em que achei estar comendo o pão que o diabo amassou, ao me distanciar um pouco das questões percebi que ao menos havia manteiga nele!

Com o tempo notei que quase todo mundo com que eu lidava passava por algum tipo de problema ou desafio no mesmo momento que eu. Confesso que me senti mais confortável ao ver que o universo não tinha feito um plano específico para me testar.

A vida foi seguindo até que um dia comecei a reparar na maneira em que cada pessoa lidava comigo. Ficou evidente que havia uma divisão bastante situada em extremos: eu era visto como polêmico. Quem me conhecia mais nutria admiração, quem me conhecia menos nutria aversão.

Claro que poderia continuar no mesmo caminho, minhas perdas e ganhos estavam equilibradas, mas o problema é que senti que essa percepção era a ponta de um icebergue.

Comecei o questionamento sobre as origens dessa “imagem”, fiz um caminho mental elencando as situações que marcaram minha vida e a forma com que elas me mudaram. Cheguei em uma conclusão bastante indigesta: eu vendi um “eu” diferente de mim. De tanto vender, me acostumei e passei a comprar!

Se soltar da armadura criada pelas porradas que a vida dá parece ser uma coisa fácil, mas não é. Quando menos espera você age como um viciado e tem momentos de idiotice. É confortável agir usando uma proteção, dentro da zona de conforto.

Retornar à sua essência lhe dará a sensação de fragilidade, de exposição, contudo, as consequências dessa mudança de atitude tendem a ser muito positivas. A vida ficará mais leve, mas fácil.

Se você entender que muita gente deixou de ser quem era para vender uma imagem, começará a entender que a maior parte dos conflitos interpessoais são desnecessários, são apenas pessoas que, assim como você, podem estar defendendo territórios imaginários e usando máscaras para tornar a vida mais segura.

Já que chegou até aqui, faça um exercício quando acabar de ler esse artigo: lembre-se da sua última discussão ou divergência, das suas atitudes e reflita se você não poderia ter agido melhor, menos desarmado, mais aberto ao que o outro tem a dizer.

Pouco importa se você é Fulano de Tal Oliveira Neto, está presidente da república ou é cunhado do Papa, se não sabe quem é de verdade, você não é alguém, é uma sombra ou um reflexo naqueles espelhos de parques de diversão.

Até mais!

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